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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 48

POV Isadora Ferraz

O Uber parecia voar. O motorista falava algo sobre futebol, mas minha cabeça estava em outro planeta. Cada farol, cada esquina, era como se o tempo esticasse, rasgando minha paciência em tiras.

Quando o carro parou em frente ao prédio do Dante, eu quase pulei pra fora antes mesmo de frear completamente. O porteiro me reconheceu, abriu o portão sem perguntar nada. Eu nem agradeci.

Subi. O elevador parecia subir em câmera lenta. O coração socava meu peito, como se quisesse sair correndo antes de mim.

A porta do apartamento estava entreaberta.

Empurrei.

— Dante? — chamei, a voz arranhada, insegura.

Ele apareceu no corredor, camisa escura, mangas dobradas, cabelo bagunçado. O rosto sério. Tenso. Os olhos... ah, os olhos.

Quando me viu, deu um passo à frente.

— Você veio. — disse, baixo.

— O que você fez? — perguntei, sem respirar direito.

Ele não respondeu de imediato. Passou a mão pelo cabelo, virou de costas. Foi até a bancada, pegou um notebook aberto, cheio de arquivos. Clicou em algo.

— Vem cá. — ordenou, num tom que era quase um convite, quase um comando.

Me aproximei. A tela começou a exibir vídeos. Meus vídeos. As gravações das câmeras. Rafael no meu quarto, cheirando minhas roupas. Heitor me segurando à força. Elena me batendo. Cada segundo, uma facada na alma.

— Eu editei tudo. — ele falou, sem tirar os olhos de mim. — Organizei as provas. Cortei, limpei. Mandei para o jornalista certo. E salvei tudo em lugares diferentes para ficar seguro. E agora... — Ele respirou fundo. — Agora não tem volta, Isa.

Eu levei a mão à boca. Um soluço escapou.

— Dante...

Ele se aproximou, segurou meu rosto com as duas mãos.

— Você queria a sua vida de volta. Eu dei. Mas agora... você vai precisar ser mais forte do que nunca.

As lágrimas escorriam. Eu me sentia nua, exposta, frágil. Mas também... viva.

— Eu... eu não sei se estou pronta. — confessei, num sussurro quase infantil.

Ele aproximou a testa da minha.

— Não existe pronto. Existe agora. E você não tá sozinha.

Eu fechei os olhos. O peito subia e descia descompassado.

— Eu sonhei tanto com essa liberdade... — murmurei. — Mas dói.

— A liberdade sempre dói. — ele respondeu, rouco. — Mas eu vou segurar sua mão até o fim.

Abri os olhos. E ali, no meio daquela confusão, da dor, da raiva, da fome de recomeçar... eu vi. O homem na minha frente não era só meu aliado. Não era só o amante. Era o meu chão. E eu? Eu era a faísca que podia incendiar tudo.

— Dante... — chamei, num sopro.

Ele me beijou. Um beijo urgente, cru, cheio de promessas que nem precisavam de palavras. Quando se afastou, os olhos dele ainda ardiam.

— Você vai estar comigo? — perguntei. — Em qualquer lugar ou situação?

Ele sorriu. Um sorriso pequeno, mas cheio de universo.

— Até o inferno, se for com você.

Eu sorri, mesmo chorando. Porque pela primeira vez em anos, eu não estava correndo. Eu estava indo. E dessa vez, com alguém do meu lado.

***

POV Heitor Montenegro

O silêncio era um grito dentro da mansão. A respiração de Célia parecia uma faca sendo afiada. Elena passava a mão na barriga, os olhos arregalados, sem cor. Rafael? Sentado no sofá, batendo os dedos na coxa, um sorriso doente no canto da boca.

O vídeo já tinha rodado o mundo inteiro. Estávamos a duas semanas de silêncio após toda exposição que Isadora nos fez passar.

Eu assisti. Três vezes. Cada segundo era um soco no estômago. Rafael no quarto dela, as roupas íntimas... Eu quase quebrei o monitor quando vi.

— EU VOU MATAR ESSE DESGRAÇADO! — berrei, chutando uma cadeira.

Célia não piscou. Apenas levantou o rosto, fria como mármore.

— A culpa é sua. — disse, com a voz firme, baixa. — Você deixou ela fugir. Você deixou ela ter voz.

Eu avancei nela, os punhos fechados, mas parei no último segundo.

— Eu fiz tudo por essa família! — cuspi. — Eu aguentei, eu calei ela, eu fiz tudo que você mandou.

Elena se levantou.

A luz branca do auditório queimava os olhos. As câmeras pareciam canhões apontados pra mim. O microfone tremia na minha mão, mas eu mantinha o rosto impassível. A gravata apertava o pescoço como uma forca silenciosa.

Atrás de mim, Célia. Postura ereta, olhar de águia. Elena não apareceu, "pra não manchar a imagem da família", segundo ela. Rafael? Sumido.

Os flashes disparavam como chicotadas. Eu sorri. O sorriso ensaiado, falso, treinado em frente ao espelho por horas naquela madrugada.

— Senhoras e senhores… — a voz saiu rouca, mas controlada. — Estamos aqui para falar de amor.

Pausa. O salão ficou em silêncio, só as câmeras clicando.

— O amor é… complicado. — continuei, fingindo emoção. — Às vezes, ele nos leva a lugares escuros. Às vezes, as pessoas que amamos se perdem.

Abaixei a cabeça. Fingi que enxugava uma lágrima.

— Isadora… — respirei fundo, subindo os olhos com aquele olhar de “homem ferido” que Célia tanto queria. — É uma mulher incrível. Mas… ela está passando por um momento difícil.

Um murmurinho cresceu na plateia.

— Eu tentei ajudá-la. Tentei protegê-la. Mas… — minha voz falhou de propósito, Célia deu um passo à frente, como uma mãe pronta pra amparar. — Ela foi manipulada. Pessoas próximas a ela a envenenaram contra mim, contra a nossa família.

Célia ergueu a mão. A voz dela cortou o ar como um bisturi.

— Nós sempre estivemos aqui. Para apoiar. Para amar. Para estender a mão. Mas Isadora escolheu o caminho do escândalo.

Ela olhou para as câmeras, o rosto de mármore.

— Nosso silêncio foi por respeito. Mas agora… precisamos dizer a verdade. Isadora está emocionalmente abalada. Não é a mulher que vocês pensam que conhecem.

Meus olhos tremeram. Por um segundo, o rosto dela apareceu na minha mente: os olhos firmes, a boca vermelha dizendo “não” pela primeira vez, o corpo tremendo de medo e coragem.

Eu respirei. Continuei a encenação.

— Eu ainda a amo. — sussurrei, a voz quebrada. — E sempre vou amá-la. Mas peço que respeitem esse momento.

Célia me apertou o ombro. O toque dela era um aviso. Um lembrete.

— Em breve divulgaremos um comunicado oficial com todos os detalhes. — ela finalizou, firme. — Obrigada pela compreensão.

A sala explodiu em perguntas, flashes, vozes se sobrepondo. Eu fechei os olhos, por dentro queimando. O veneno corria em cada célula. Mas por fora? O marido ferido. O homem injustiçado.

E, no fundo, mesmo no fundo… uma voz sussurrava: “Você perdeu, Heitor.” Mas ainda não era hora de aceitar. Não na frente das câmeras. Não na frente do mundo. Desci do palco. As perguntas continuavam, os repórteres se esticavam, quase rasgando a voz.

Eu só queria sumir. Mas agora… o espetáculo estava lançado. Eu era só o ator que esqueceu como voltar a ser humano.

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