POV Heitor Montenegro
Saí do palco com os flashes ainda estourando na retina. O corredor gelado parecia apertar minha garganta. Entrei na sala reservada, bati a porta. Célia já estava lá, sentada, mexendo no celular. O rosto dela? Calmo. Frio. O olhar dela encontrou o meu e me atravessou como uma faca.
— Está pronto? — ela perguntou, sem levantar a cabeça.
— Quase. — respondi, a voz baixa, seca.
Ela largou o celular na mesa.
— Nós precisamos de um último empurrão. O público adora espetáculo, mas o público também precisa de provas.
Caminhei até a poltrona. Minhas mãos tremiam. Peguei o tablet. Apertei “play”. O primeiro vídeo começou: Isadora chorando no quarto, gritando, jogando objetos no chão. O rosto dela vermelho, transtornado. A voz falhando de tanto chorar.
— Olha isso… — murmurei, passando o dedo na tela. — Ela parecia louca.
— Parece não. Ela vai parecer. — Célia corrigiu, com frieza.
O segundo vídeo. Um trecho dela saindo escondida, entrando no carro de Dante. O beijo rápido. O jeito dela agarrada no pescoço dele.
— Traição. — sussurrei, como se fosse um veneno delicioso. — O público vai engolir isso.
— Vai. — Célia sorriu. — Vamos mostrar o quanto ela é instável. O quanto ela foi ingrata. E promíscua.
— Mas… — hesitei, olhando pro vídeo. — E se…
— E se nada, Heitor. — Célia se levantou, veio até mim. Segurou meu rosto, como se eu fosse um boneco. — Você esqueceu quem somos? Você esqueceu quem é a família Montenegro? Nós não perdemos. Nunca.
Eu engoli em seco. O rosto dela estava perto demais. A respiração dela cheirava a café forte e desespero disfarçado.
— Vamos soltar isso aos poucos. Primeiro, os surtos. Depois, os encontros. Vamos dar ao público a narrativa certa. — Ela sorriu, os dentes brancos, afiados. — Eles vão achar que estão descobrindo tudo sozinhos.
— E depois? — perguntei, a voz trêmula.
— Depois… — Ela apertou meu rosto mais forte. — A gente enterra ela.
Fiquei parado. O vídeo pausado no frame do rosto de Isa, vermelho, machucado. Os olhos dela pedindo socorro que ninguém ouviu. Por dentro, algo doía. Algo queimava. Mas eu empurrei. Tranquei. Porque o que importa… é ganhar. Sempre foi.
***
POV Isadora Ferraz
Eu estava sentada no sofá, o corpo inteiro rígido, como se cada músculo gritasse para fugir. O controle remoto tremia na minha mão. Dante estava ao meu lado, mas parecia uma parede viva, prestes a rachar. A TV mostrava Heitor subindo ao palco. O rosto arrumado, a gravata sufocando o pescoço. Atrás dele, Célia. Fria. Posicionada como uma estátua de mármore. "Estamos aqui para falar de amor." As palavras saíram e eu me encolhi. Como se cada sílaba fosse uma lâmina contra a minha pele.
— Amor? — eu murmurei, quase engasgando. — Ele tá falando de amor?
Dante não respondeu. Os punhos dele estavam fechados, tão brancos que pareciam de pedra.
"Às vezes, o amor nos leva a lugares escuros. Às vezes, as pessoas que amamos se perdem."
Meus olhos queimavam. Eu via aquele homem que eu amei, mesmo que hoje parecesse um fantasma.
"Isadora… é uma mulher incrível. Mas… ela está passando por um momento difícil."
— Filho da puta… — Dante rosnou. A voz dele veio baixa, mas vibrante, como trovão contido.
Eu respirei fundo, o peito apertado. Cada palavra parecia esvaziar o ar do cômodo.
"Ela foi manipulada. Pessoas próximas a ela a envenenaram contra mim, contra a nossa família."
— Ele está me chamando de louca… — eu sussurrei, a voz falhando. — Ele está dizendo para o mundo inteiro que eu sou instável.
"Nosso silêncio foi por respeito. Mas agora… precisamos dizer a verdade. Isadora está emocionalmente abalada. Não é a mulher que vocês pensam que conhecem."
A lágrima caiu. Não consegui segurar. Um soluço seco rasgou a garganta.
— Isa… — Dante tentou segurar minha mão, mas eu estava dura, fria, imóvel.
"Eu ainda a amo. E sempre vou amá-la. Mas peço que respeitem esse momento."
— Shhh… eu vi, eu sei… eles são monstros, Isa. Mas você está aqui. Você está viva. — A voz dela era firme, quente, a âncora que eu precisava.
Me levou até o sofá, me fez sentar. Pegou uma manta e jogou sobre meus ombros.
— Eles podem distorcer tudo. Mas eles não podem apagar quem você é. — Olívia falou, firme. — Você é a Isadora. Você é a mulher que escreveu contos incríveis, que sobreviveu a tudo, que ousou sair daquela casa.
Respirei fundo. As palavras dela batiam em mim como uma maré — ora afogavam, ora traziam ar.
— E agora? — perguntei, a voz tremendo. — O que eu faço? O que eu faço com tudo isso… com essa criança… com o mundo me chamando de louca?
Ela segurou minhas mãos, os olhos fixos nos meus.
— Agora você respira. E a gente pensa em cada passo. Um de cada vez. — A pausa veio carregada de silêncio. — E sobre a criança… você precisa confirmar.
Fechei os olhos. O coração apertou. Senti as mãos dela apertarem as minhas com força.
— Eu não posso… eu tenho medo… — minha voz saiu num fio, quase inexistente. — E se for real?
— Você não vai passar por isso sozinha. — Ela repetiu, firme. — Eu vou com você. Se for hoje, eu vou. Se for amanhã, eu vou.
Abri os olhos. Vi a força nos dela, como se ela segurasse meu mundo inteiro só no olhar.
— Me leva… — sussurrei. — Me leva pra fazer o exame de sangue. Eu preciso saber. Preciso… antes que eu enlouqueça.
Ela assentiu. O semblante se suavizou, mas os olhos ficaram mais duros.
— Eu vou com você. A gente vai amanhã de manhã. Amanhã a gente descobre, Isa. E depois… seja o que for, a gente enfrenta juntas.
Soltei o ar, um sopro pesado.
— Obrigada… — minha voz saiu pequena, mas cheia de verdade.
Ela me puxou pra um abraço de novo, e eu deixei.

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