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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 50

POV Isadora Ferraz

Acordei antes do sol. O silêncio do apartamento de Olívia era tão pesado que chegava a doer nos ossos. Me sentei na beira da cama, os pés gelados no chão, a cabeça girando como um carrossel quebrado. Tomei um banho rápido. A água escorria e levava embora um pouco do medo, mas não o suficiente. Olhei meu reflexo no espelho. Olheiras profundas, lábios pálidos. Uma mulher que já enterrou tantas versões de si que já nem sabe quantas ainda restam.

Vesti uma calça jeans surrada, uma camiseta larga. Nada de batom, nada de escudo. Hoje eu ia nua. Não o corpo, mas a alma. Quando saí do quarto, Olívia já me esperava na cozinha. Dois cafés na mesa, ela segurava um copo d’água com as duas mãos, os dedos inquietos.

— Dormiu? — perguntou, mas o olhar dizia que ela já sabia a resposta.

Neguei. Ela empurrou o café pra mim. Segurei, mas não consegui beber.

— Vamos? — falei, num sopro.

Ela levantou, pegou as chaves. Saímos. O elevador parecia uma cápsula sufocante, a respiração dela e a minha se misturando num silêncio cheio de perguntas que nenhuma das duas ousava fazer. Na rua, o vento cortava a pele como navalha. O táxi chegou rápido. Entrei. Olívia entrou logo depois. O motorista deu “bom dia”, mas eu nem ouvi. O mundo lá fora parecia outra galáxia.

Quando chegamos ao laboratório, as paredes brancas pareciam gritar. O cheiro de álcool e desinfetante me deixou tonta. Preenchi a ficha com a mão tremendo. O papel quase rasgou debaixo da caneta. A enfermeira chamou meu nome. A voz dela era suave demais, como se soubesse que qualquer palavra alta me quebraria.

Entrei na salinha. Sentei na cadeira fria. Olívia ficou do meu lado, segurando minha mão com tanta força que meus dedos formigaram.

— Vai doer só um pouquinho — a enfermeira disse, ajeitando a agulha.

Eu ri. Um riso seco, quase amargo. Como se alguma coisa ainda pudesse doer mais do que o que eu já vivi. Fechei os olhos. Senti a agulha entrar, o sangue saindo, quente, vivo. “Será que já tem outra vida aqui dentro?”, pensei. Quando tudo acabou, Olívia me ajudou a levantar. Eu me sentia como se tivesse corrido uma maratona sem ar.

— Os resultados saem amanhã à tarde — a enfermeira informou, sorrindo gentil, mas distante.

Assenti.

A saída do laboratório parecia tão distante quanto outra vida. Cada passo que eu dava parecia afundar no chão gelado. Segurava a ficha contra o peito como se fosse uma arma ou um escudo e, talvez, fosse mesmo.

Olívia caminhava ao meu lado, silenciosa. O silêncio dela era um abraço que eu não sabia se merecia. Quando chegamos ao saguão, ela disse que ia ao banheiro. Assenti, sem forças pra responder.

Me sentei em uma das cadeiras azuis, o estofado frio grudando na pele. O barulho do bebedouro, o som dos passos de enfermeiras apressadas, tudo parecia longe. Como se eu estivesse assistindo à minha vida de fora.

Até que ouvi uma risada. Levantei os olhos, e o mundo girou.

Elena.

Vestida com um vestido longo, caríssimo, óculos de sol enormes, segurando a bolsa com a confiança de quem acha que o mundo inteiro lhe deve reverência. Ela falava com um homem alto, de jaleco. O médico.

Ela não me viu. E, por um impulso quase doentio, me abaixei, fingindo amarrar o cadarço da bota. Inclinei a cabeça, ouvindo.

— Doutor Sérgio, eu não aguento mais — Elena dizia, a voz baixa, urgente, mas carregada de histeria contida. — Ele está cada dia mais estranho. Impossível, agressivo.

O médico suspirou, segurou o braço dela.

— Calma, Elena. Você precisa manter a calma. A primeira coisa que Heitor vai notar é seu nervosismo.

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