POV Heitor Montenegro
Eu fiquei parado, o motor ainda ligado, o volante suado nas minhas mãos. O banco do passageiro ainda tinha o calor dela. O cheiro dela. O silêncio dela. Eu fiquei olhando a porta aberta. O vento frio entrou, me rasgou a pele. Mas nada doía mais do que o vazio que ela deixou quando desceu do carro.
Ela foi embora. Não era a primeira vez. Mas hoje... foi diferente. Hoje, eu senti. Hoje, eu vi. Ela nunca mais volta. Apertei o volante até os ossos estalarem. Eu me odiava. Odiava ela. Odiava o mundo. "Eu ainda te amo", eu disse. E era verdade. A porra da verdade que me queimava vivo.
Mas amar nunca foi o suficiente pra mim. Eu queria possuir. Dominar. Moldar. Queria ela presa nos meus dedos, respirando meu ar, pedindo permissão pra existir. E agora... agora ela não era mais minha. Eu vi nos olhos dela. O mesmo olhar que me implorava perdão anos atrás agora era um corte frio.
"Não existe de volta", ela disse. Odeio essa frase. Odeio essa porra de realidade. Bati a cabeça contra o encosto do banco. Fechei os olhos. Tentei lembrar o toque dela, o riso, os primeiros dias no apartamento pequeno, o café queimado, os pés frios embaixo do cobertor.
Eu estraguei tudo. A culpa me roía por dentro, mas logo virava raiva. Uma raiva que eu não sabia onde enfiar. Uma raiva que queria explodir o carro, a rua, o mundo. "Você matou tudo", ela disse.
E matou a última esperança que eu tinha de me salvar. Eu olhei o celular. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. O silêncio era meu novo cativeiro. Por um segundo, eu pensei em correr atrás dela. Gritar. Pedir de joelhos. Mas eu sabia. Não ia adiantar.
Ela não era mais minha mulher. Ela era um terremoto. Uma fênix. Eu era só um homem sozinho, trancado no próprio inferno. Liguei o carro. Dirigi sem rumo. O volante parecia uma âncora. No fundo, eu sabia: o amor que eu pensei que controlava tinha me engolido inteiro. E agora… não sobrava nada. Nada além de mim. E o vazio.
***
Cheguei em casa batendo a porta como um trovão. O barulho ecoou pelos corredores frios daquela mansão maldita. Célia apareceu no topo da escada, com a xícara de chá equilibrada como se fosse rainha de algum império falido.
— O que aconteceu? — ela perguntou, fingindo calma, mas o olho dela tremia.
Joguei as chaves no aparador, respirei fundo, mas parecia que o ar me arranhava por dentro.
— Chega. — cuspi, a voz rouca. — Eu cansei de esperar.
Ela desceu devagar, cada passo dela era uma sinfonia de manipulação.
— Está falando do quê exatamente? — perguntou, como se fosse santa.
Eu ri. Um riso seco, vazio, que saiu arranhando a garganta.
— Da Isadora. Daquela coletiva ridícula. De toda essa farsa. — Passei a mão no rosto, sentindo o suor frio. — Eu fui até ela hoje. Achei que... — Travei. O peito doeu. — Eu achei que dava pra recuperar.
Célia me olhou como quem olha um cachorro doente.
— E?
— E acabou. — explodi. — Ela não volta. Ela não me ama. Nunca mais vai me amar.
O silêncio entre nós virou um abismo.
Célia pousou a xícara, arrumou a blusa, inspirou fundo.

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