POV Heitor Montenegro
A tela do celular ainda brilhava na minha mão. A notificação do jornal apareceu como uma facada bem dada: “Exclusivo: Os bastidores do casamento de Isadora Ferraz e Heitor Montenegro, a verdade por trás do escândalo.”
Eu não abri. Eu sabia o conteúdo. Eu vi aquelas merdas sendo editadas. Vi Célia cortar, costurar, manipular como se estivesse bordando uma tapeçaria de mentiras. E mesmo assim… deixei.
Porque no fundo, uma parte de mim queria que ela sentisse. Dor. Raiva. Vergonha. O gosto amargo de ser exposta. Como eu me senti quando ela foi embora. Como eu me senti quando vi ela sorrindo nos braços de Dante.
Passei a mão pelo rosto. A barba crescida arranhava os dedos. Levantei devagar do sofá, a casa vazia engolindo meus passos. Lá fora, o barulho da cidade parecia zombar de mim. Gritos, buzinas, vida acontecendo. Enquanto aqui dentro… o mundo desabava em silêncio.
Fui até o bar. Enchi o copo de uísque. Nem sei qual dose era aquela. A primeira que doía. Ou a última que me destruía.
— Já foi publicado. — disse Célia, entrando sem bater. — Em menos de uma hora, está entre os assuntos mais comentados do país.
Virei o copo inteiro. O fogo desceu rasgando a garganta.
— E aí? Está feliz? — minha voz saiu rouca.
Ela me encarou. Sem um pingo de culpa.
— Isso não é sobre felicidade. É sobre proteção. Sobre controle de dano. Você não entendeu ainda, Heitor? — Ela se aproximou. — Você perdeu. Ela destruiu sua imagem. Seu casamento. Sua sanidade. A única forma de salvar o nome dos Montenegro… era destruir o dela primeiro.
Fechei os olhos. Por um segundo, o rosto de Isa veio inteiro. O choro contido. Os olhos suplicando pra ser ouvida. A coragem de enfrentar um mundo que sempre quis silenciar mulheres como ela. E eu. Eu fui parte do silêncio. Parte do cativeiro.
— Ela vai quebrar. — Célia sussurrou, quase satisfeita. — Vai implorar pra voltar à sombra. Pro canto de onde nunca devia ter saído.
Abri os olhos. Olhei pra minha mãe. E pela primeira vez… senti nojo. Não dela. De mim.
— E se ela não quebrar? — perguntei, baixo.
— Que?
— E se ela não quebrar, Célia? E se ela renascer? Porque ela faz isso. Ela cai bonito. Mas levanta mais bonita ainda.
Célia riu. Riu como quem subestima. Como sempre fez.
— Não existe redenção para uma mulher com a reputação arruinada.
Soltei uma risada seca.
— Então você não conhece a mulher que viveu aqui por 7 anos.
Porque sim, fui eu. Com minhas mentiras, minha obsessão, minha covardia. Fui eu que fiz dela o que ela é agora. E mesmo afundando, mesmo cercado de cinzas e bebida, mesmo sem nada…
eu ainda amava aquela maldita mulher. Mas talvez, amar alguém seja saber… que você nunca vai merecer ela de volta.
***
POV Célia Montenegro
A taça de vinho girava lentamente entre meus dedos. Vinho chileno, safra rara. Sabor de vitória.
A matéria ainda estava no ar. O vídeo, viral. Milhares de comentários. Gente chamando Isadora de louca, manipuladora, desequilibrada. Outros, tentando defendê-la, como se qualquer mulher que grita por socorro ainda merecesse empatia depois de um escândalo.
Inocentes.
A guerra da opinião pública era vencida por quem sabe moldar narrativa. E isso, meu bem, eu fazia de olhos fechados. Me sentei à mesa de vidro, cruzando as pernas com elegância. Peguei o tablet. Cliquei em mais um portal. Manchete em destaque:
"A verdade sobre Isadora Ferraz — vídeos inéditos revelam o lado sombrio da Montenegro."
Sorri. Um sorriso lento. Contido. Como o de uma cobra satisfeita.
— Finalmente, alguém colocou essa garota no lugar dela — murmurei.
POV Isadora
A notificação acendeu a tela do meu celular com o som seco de alerta. O nome do laboratório piscava em azul. Engoli seco. O mundo ao meu redor, os papéis sobre a mesa, o computador em modo de descanso, a xícara de chá esquecida, congelou.
Toquei com o polegar trêmulo. “Resultado disponível. Clique para visualizar.”
Minhas mãos estavam geladas. Meu coração, não, ele batia alto demais, rápido demais. Parecia saber antes de mim. Fechei a porta da sala. Tranquei. Sentei. Respirei fundo. Respirei como quem se prepara pra uma sentença. Cliquei.
As palavras surgiram como uma chuva que cai devagar… e afoga.
"Beta-hCG: 3.175 mUI/mL."
Resultado: Positivo.
Grávida. A mão tremeu. Os olhos se encheram, mas não deixei cair. Não dessa vez. Porque não era tristeza. Era medo. Era choque. Era a vida gritando dentro de mim quando tudo lá fora parecia querer me silenciar.
Levei a mão à barriga. Não tinha nada visível. Só um calor estranho. Um susto silencioso. Uma presença que não era mais só minha.
— Merda… — sussurrei.
Me levantei, como se a cadeira queimasse. Andei em círculos na sala. Pensei em Dante. Pensei em tudo. No caos dos últimos dias.
— Isso não pode estar acontecendo… — sussurrei, sentindo o coração disparar.
Mas estava. O teste de farmácia tinha sido só um aviso. Uma fagulha. Agora era oficial. Real. Clínico. Engoli a notícia como quem engole uma faca. E então… uma certeza me atravessou. Eu não vou contar. Ainda não. Não para Dante. Só para Olívia. Porque o mundo lá fora ainda estava pegando fogo, e eu precisava entender se esse bebê nascia do caos ou da luz. Se nascia para me salvar… ou me destruir. Fechei o e-mail. Apaguei o histórico. Tirei uma cópia do exame e salvei numa pasta com senha. Um segredo entre mim e algo que crescia em silêncio.
Peguei minha bolsa. Fingi normalidade. Ajeitei o cabelo no espelho.
— Você vai ficar bem. — sussurrei, mais pra mim do que pra quem me escutasse dentro de mim.
Saí da sala com a mesma expressão de antes, liguei para Olívia no caminho para confirmar o positivo e ela mais uma vez me garantiu que eu não estava sozinha.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”