POV Isadora Ferraz
O som dos teclados ecoava na sala da editora como chuva fina. Lá fora, o céu começava a pesar — fim de tarde típico de uma segunda-feira morna. Dentro de mim, tudo estava silencioso demais. A ansiedade era uma brisa constante, roçando a nuca. Eu tentava me distrair revisando um original.
Dante tinha saído para uma reunião. A ausência dele deixava tudo mais... vulnerável.
— Isa? — A voz de Bia, uma das meninas do marketing, cortou o silêncio. Baixa. Tensa. — Cê viu isso aqui?
Ela parou do meu lado e colocou o celular na minha frente.
“ISADORA FERRAZ EM SURTO PSICÓTICO? VAZAM VÍDEOS EXCLUSIVOS!”
A manchete piscava em letras garrafais, com meu nome espalhado como se fosse uma sentença de morte.
Meu coração parou. Literalmente parou.
— O quê...? — minha voz saiu fina, trêmula.
Toquei a tela. O vídeo abriu. Era eu. Mas não eu. Era a pior versão que alguém poderia montar: cortes secos, cenas fora de contexto, áudios editados até parecer que eu estava surtando, chorando, implorando, empurrando Heitor como se eu fosse a agressora.
Um nó se formou na garganta. As mãos começaram a tremer. A sala em volta se distorceu.
— Me dá isso — sussurrei, pegando meu celular.
Notificações pulando como granadas.
Vi um novo vídeo.
Eu discutindo com Heitor. Eu gritando que queria ele longe. Mas sem o antes. Sem a agressão dele. Sem a câmera do corredor que mostrava ele me cercando, os olhos dele cheios de ódio. A edição era limpa, profissional, e cruel. Parecia verdade.
Eu bloqueei o celular. Levantei num impulso. A cadeira arrastou com violência. Bia me olhou assustada.
— Isa... você está pálida. Quer que eu chame o Dante?
— Não. — falei rápido, seca. — Eu preciso sair daqui.
Saí andando apressada, sentindo as pernas bambas. O mundo girava. Eu entrei no banheiro da editora e travei a porta. Olhei no espelho. E me vi. Do outro lado da tela. A mulher dos vídeos. A mulher que parecia doente. A mulher que parecia louca.
— Eles me destruíram… — sussurrei.
Uma lágrima escorreu. E depois outra. Eu me encostei na parede fria do banheiro e escorreguei até o chão. O chão virou abrigo. A vergonha, armadura. O ódio… combustível. Peguei o celular. Liguei pra Olívia. Voz trêmula.
— Eles soltaram, Oli. Os vídeos. Tudo. Eles... me chamaram de insana.
Silêncio do outro lado. E então, a voz firme da única pessoa que ainda era chão.
— Vai pra casa. Agora. Eu vou cuidar do resto.
— Eu não sei como... como vou sair daqui com todo mundo me olhando…
— Sai com a cabeça erguida, Isadora. Você é a vítima. Nunca se esqueça disso. Querem te fazer parecer louca porque sabem que você tem voz agora.
Desliguei. Respirei. Limpei o rosto. Me levantei. E saí do banheiro com as costas eretas. Porque mesmo machucada, eu ainda sabia andar com a dignidade de quem carrega uma verdade que ninguém mais pode apagar.
***
A porta fechou atrás de mim com um estalo seco. Me encostei ali mesmo, no batente, como se minhas pernas tivessem esquecido como funcionam. O celular ainda tremia na minha mão — notificações sem parar. Vídeos. Comentários. Gente rindo. Gente acusando.
Eu queria vomitar.
Olívia veio do corredor já com o olhar em alerta.
— Isa...
— Tá em tudo. — minha voz saiu rouca. — Redes sociais, sites de fofoca. Eles... eles me rasgaram, Oli.
Ela não disse nada. Apenas veio até mim e me puxou pro abraço. Eu me quebrei ali. Um choro contido, feio, seco. Sem lágrimas. Só o tremor do corpo e a garganta fechada.
— Eles disseram que eu sou louca. — sussurrei, enterrando o rosto no ombro dela. — Eles estão fazendo todo mundo acreditar que eu... que eu sou perigosa.
— Você não é. — ela disse, com aquela firmeza que já salvou minha pele outras vezes. — E quem te conhece, quem importa, sabe disso.
Nos separamos devagar. Ela me levou até o sofá. Tirou meu casaco, me cobriu com uma manta. Eu nem percebi que estava tremendo até ela segurar minha mão.
— Eu tô com medo, Oli. — confessei, olhando pro nada. — Medo do que vem agora. Medo do que vão fazer com essa gravidez. Se vão descobrir. Se vão me expor mais. Se vão...
— Chega. — ela me interrompeu. A voz baixa, mas cortante. — Você não vai cair nessa armadilha emocional, Isa. Você está grávida. Você precisa respirar. Dormir. Comer. E pensar. Eles querem te desestabilizar. Querem te ver duvidando de si mesma. Mas a gente já sabe o que fazer.
— Se lançarmos a nota amanhã cedo, a imprensa ainda vai estar quente com a coletiva deles — Caio disse, digitando algo no celular. — É o timing ideal.
— E se soltarmos parte dos vídeos como teaser? — Dante completou, os olhos em mim. — Mostramos só o suficiente pra pôr dúvida na versão deles.
— Perfeito. — Olívia respondeu. — Mas Isa... você tá ouvindo?
Assenti, mesmo que não estivesse. Meus dedos brincavam com o celular no colo. E foi então… que ele vibrou.
Laboratório GenVida: resultado disponível. Clique para acessar.
O sangue sumiu do meu rosto. Meu dedo deslizou sozinho pela tela, o coração batendo alto demais pra ser ignorado. Acessei o link. Digitei a senha. Esperei. E então apareceu.
Resultado: POSITIVO.
O mundo parou. A sala ao meu redor ficou distante, como se eu tivesse sido sugada pra dentro de um túnel. Uma pressão no peito. Uma vertigem mansa e cruel.
Positivo.
A palavra piscava na tela como um letreiro de neon. Um grito mudo.
— Isa? — Dante chamou.
Levantei os olhos. Os três me olhavam.
— Aconteceu alguma coisa?
Engoli seco. Tentei esconder o celular, mas ele viu. Sempre vê.
Dante ainda me encarava. Confuso, atento. A mandíbula travada.
— Isa, o que foi? — ele insistiu, mais suave agora.
Olívia se adiantou antes que eu dissesse qualquer coisa.
— Deve ser alguma notícia da empresa — ela cortou, rápida, com um sorriso seco. — Depois a gente vê isso, né amiga?
Assenti, meio trêmula, guardando o celular no bolso. Fingi um sorriso, mas por dentro tudo queimava. Dante arqueou uma sobrancelha, desconfiado. Mas Caio já voltava a falar da imprensa, desviando a atenção. Olívia puxou minha mão por debaixo da mesa, apertando de leve. Um recado silencioso: "Tô aqui. Respira." Mas o mundo já não era o mesmo. Dentro de mim, havia mais do que medo, raiva, guerra. Havia uma vida.

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