POV Isadora Ferraz
O quarto estava escuro, exceto pela luz amarelada do abajur. Era fim de um dia longo, mais um e meu corpo implorava por descanso. Arranquei a blusa devagar, sentindo a pele arrepiar quando o tecido caiu no chão. Caminhei até o espelho e encarei meu reflexo.
Tinha olheiras fundas, os olhos cansados de tanto ver o pior das pessoas. Os lábios rachados de segurar palavras. A alma... uma colcha de retalhos mal costurada. Soltei o cabelo, tirei a maquiagem com o cuidado de quem apaga marcas de guerra. A água fria do rosto foi como um soco suave de realidade. Eu ainda estava aqui. Ainda resistia.
Vesti uma camiseta larga, uma calça de moletom surrada. Meus pés descalços tocaram o chão gelado, mas nem senti. Já estava dormente por dentro. Me sentei na beira da cama, com as mãos no colo, e respirei fundo. Um, dois, três... Em menos de três meses, minha vida virou um campo minado.
Me casei achando que estava entrando num jardim. Fui silenciada achando que estava sendo protegida.
Fui traída achando que estava sendo amada. E agora... Estou grávida.
O futuro se pendura nos meus ombros como uma criança que ainda não tem nome. Fechei os olhos. Vi flashes na mente. O rosto da minha mãe, com aquele sorriso tenso. Heitor, com a mão apertando meu braço. Dante, com os olhos cheios de uma ternura que ele tenta esconder. Olívia, meu único porto.
E eu. Ali. No meio da tempestade. Com uma nova vida crescendo dentro de mim e ninguém, além de mim e Olívia, sabendo disso.
Levantei. Não queria dormir. Não ainda. Caminhei até a escrivaninha no canto do quarto. Me sentei. Abri o notebook, mas não digitei nada. Peguei o caderno velho, de capa preta, onde escrevo tudo que ainda não tenho coragem de dizer em voz alta.
Rasguei uma folha. Peguei a caneta.
"Hoje, eu quase esqueci quem sou. Mas lembrei a tempo. Lembrei quando vi meu nome nos sites. Lembrei quando escutei minha voz distorcida nos vídeos. Lembrei quando quase acreditei que era mesmo fraca.
Mas não. Eu sou Isadora Ferraz. E ninguém vai escrever minha história por mim."
Deixei a caneta cair sobre a mesa. Os olhos arderam. A cabeça pesou. Eu tentei me levantar, mas o corpo não quis. Os músculos renderam-se ao cansaço, ao peso de tudo. Encostei a cabeça nos braços e fechei os olhos ali mesmo, com o papel ainda fresco sob minha pele.
A última coisa que senti foi o cheiro da tinta. A última coisa que pensei foi: "Se esse for o fim... pelo menos fui eu quem escreveu."
A escuridão virou um sussurro doce. Um véu suave caiu sobre os meus olhos enquanto o cansaço me arrastava pra um lugar onde o tempo não existia. E, de repente, eu estava lá. No começo.
Flashback
O vestido branco dançava ao redor dos meus tornozelos enquanto eu girava na varanda. O sol batia forte, mas havia vento, aquele vento leve de final de tarde de verão. Eu ria. Ria como se o mundo fosse limpo. Como se o futuro estivesse nas minhas mãos.
— Você está linda. — a voz dele veio atrás de mim, com um sorriso dentro.
Heitor.
Ele se aproximou, me girou pela cintura como nos filmes. Me beijou a testa, depois a boca, e sussurrou um “minha esposa” com gosto de promessa eterna. A gente tinha uma casa só nossa. Uma rotina leve. Café na cama aos domingos. Vinho à noite. Ele aparecia com flores no meio da semana só porque sim. Fazia carinho no meu cabelo quando eu dormia no sofá. Me olhava como se eu fosse a resposta que ele nunca soube que procurava.
— Quero você comigo para sempre, princesa. — ele dizia. — Eu vou cuidar de você. Eu juro.
— Você devia me agradecer. — ele disse. — Sem mim, você não é ninguém.
E aí… Tudo se partiu. A varanda virou ruínas. A cozinha virou silêncio. E o rosto dele… virou sombra.
Acordei num pulo. O peito arfando. O suor frio escorrendo pela nuca. As luzes do abajur ainda acesas. A caneta caída no chão. O caderno aberto com minha letra atravessada. Por alguns segundos, eu fiquei ali. Sem saber onde estava. Se era sonho. Se era memória. Se era aviso.
Mas a verdade bateu no peito: era tudo real. O amor que virou prisão. O homem que virou lobo. Limpei as lágrimas com as costas da mão. Me levantei devagar. E fui até a janela. O céu ainda estava escuro. Mas lá no horizonte… um fiapo de luz começava a nascer.
O sol ainda não tinha subido por completo quando eu saí do banho. Os primeiros feixes de luz entravam pela janela do banheiro, tocando a cerâmica fria como um lembrete sutil de que o dia tinha começado com ou sem a minha permissão.
A toalha escorria pelas costas, e o espelho me mostrava um reflexo cansado, mas determinado. Me olhei de verdade. Os olhos inchados da noite anterior, a linha fina entre as sobrancelhas, o lábio ainda machucado de tanto ser mordido pelo medo. Era eu ali. Do jeito que sobrou. Do jeito que insisti em continuar.
Vesti a roupa com cuidado. Nada chamativo, mas também nada apagado. Um blazer claro, calça preta, salto médio. Maquiagem leve, só o suficiente pra esconder o que eu não queria explicar. Cabelo preso num coque improvisado. Perfume atrás da orelha. Um último olhar no espelho.
— Hoje não. — sussurrei pra mim mesma. — Hoje você não vai desmoronar.
A cozinha estava silenciosa. Peguei um pedaço de pão, tomei um gole de café. Nem fome eu tinha, mas o corpo precisava de algo para não desabar. As horas escorriam e, com elas, a hesitação. Mas eu decidi.
Eu ia trabalhar. Ia atravessar as ruas, as olhadas, os cochichos. Ia encarar as pessoas. As manchetes. Os olhares tortos. Os julgamentos. Porque a verdade é: não se vence o medo se escondendo para sempre.

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