POV Isadora Ferraz
A fachada da editora parecia a mesma de sempre, mas eu não era mais a mesma mulher que atravessava aquelas portas.
Respirei fundo antes de passar pela recepção. O segurança me olhou com aquele misto de pena e curiosidade que dá vontade de cuspir no chão. Mas eu sorri. Um daqueles sorrisos frios, ensaiados.
— Bom dia, Isa. — ele murmurou.
— Bom dia. — retribuí, sem parar de andar.
O som dos saltos contra o piso de porcelanato ecoava nos corredores. Cada passo meu era um protesto. Cada respiração, uma declaração: eu estou aqui. E ninguém vai me apagar. Alguns olhares se desviaram quando passei. Outros encararam. Gente no café da copa cochichando, gente no elevador que parava de conversar quando eu entrava.
Cheguei na minha sala. A maçaneta estava gelada. Abri. Tudo ali dentro já era familiar. Meu lugar. Minha história. Minhas escolhas. E, por mais que o mundo quisesse, ninguém podia tirar isso de mim. Larguei a bolsa na cadeira, tirei o casaco e me sentei. Liguei o computador. A tela acendeu e o reflexo dela me encarou: a nova Isa.
Em poucos segundos, batidas leves soaram na porta.
— Entra.
Era Bia, com os olhos arregalados e um copo de café nas mãos.
— Eu trouxe para você… não sabia se ia vir hoje. — disse, quase num sussurro.
— Obrigada. — peguei o café. Nossas mãos se tocaram e ela apertou de leve. Um gesto pequeno, mas cheio de humanidade. — Tô bem, Bia. De verdade.
— Você é muito corajosa. — ela falou, antes de sair.
Fiquei ali, com o café quente entre os dedos. Deixei a tela do computador me mostrar os e-mails acumulados. Convites para entrevistas. Editoras querendo pronunciamento. Assuntos atrasados. A vida, impiedosa, exigindo presença.
Mas a presença eu tinha. A dor? Também. Mas era minha. E eu estava disposta a fazer dela matéria-prima. Abri um novo documento. Coloquei um título no topo: “Carta para quem tentou me calar.”
Os dedos pousaram no teclado. E eu comecei.
Carta pra quem tentou me calar
Eu sei o que estão dizendo.
Que surtei.
Que fui ingrata.
Que virei o monstro da história.
Não me surpreende. Quando uma mulher decide gritar, sempre tentam silenciar o eco da sua dor com mentiras bem editadas.
Mas deixa eu te contar uma coisa, bem simples:
Eu não estou em surto.
Eu estou acordada.
Sete anos. Sete anos da minha vida acreditando que o amor era o que me amarrava. Que ser amada era aceitar tudo. Até o silêncio. Até o medo. Até a sensação de pisar em ovos dentro da própria casa.
Mas amor que machuca não é amor.
É armadilha.
E eu escapei.
Com cicatrizes, com medo, mas com uma verdade intacta dentro do peito. A minha.
Vocês podem cortar meus áudios, editar meus gritos, costurar minha dor em manchetes baratas. Mas não podem tirar o que vivi. O que senti. O que suportei calada enquanto todo mundo aplaudia um espetáculo de fachada.
Hoje, eu escrevo essa carta pra lembrar vocês, e a mim mesma, de que ninguém mais vai me contar quem eu sou.
Eu sou Isadora Ferraz.
E essa história ainda é minha.
***
Terminei com o coração aos pulos. O peito ardendo. Mas pela primeira vez, não de medo.
— Caralho. — murmurei sozinha, encostando as costas na cadeira.
E então... três batidas na porta. Antes que eu pudesse responder, Dante apareceu. Terno escuro, gravata frouxa, olheiras leves, mas o olhar firme, como se o mundo estivesse caindo e ele ainda segurasse meu nome com as duas mãos.
— Eu bati… — disse, entrando devagar. — Mas não esperei resposta. Desculpa.
— Tudo bem. — fechei o notebook, quase como um reflexo. Ainda não era hora dele ler aquilo. Ainda não.

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