POV Isadora Ferraz
O relógio marcava 19:32. Minha mão tremia levemente ao passar o batom. Aquela cor vinho queimado, intensa, como se quisesse lembrar a mim mesma de que eu ainda estava aqui. Que eu ainda era mulher, e não só sobrevivente.
A barriga ainda era invisível. Mas o peso do segredo? Não. Esse crescia mais a cada passo.
— Vai com o verde — Olívia gritou da sala, sem nem olhar. — O vestido verde. Deixa o Dante sem ar. E confunde ele. Que homem não surta com mistério?
Soltei uma risada curta, nervosa. O verde-musgo de alcinha, decotado nas costas e com fenda lateral, estava pendurado ali, me encarando como se dissesse: "Você ainda sabe ser desejada."
— Não sei se… — comecei, mas Olívia apareceu na porta com os braços cruzados.
— Vai, mulher. A noite é tua. O Dante também.
Levantei as sobrancelhas, mas cedi. O tecido escorregou pelo meu corpo como um sussurro antigo. Ele me abraçava nas curvas certas, disfarçava o enjoo, e deixava meu pescoço exposto. Vulnerável. Forte.
Penteei os cabelos num coque baixo, com algumas mechas soltas. Perfume atrás das orelhas. No pulso. Na clavícula. Aroma de dama-da-noite e recomeço. Respirei fundo. Olhei no espelho uma última vez. A mulher ali… ainda era eu. Mas com cicatrizes douradas.
A campainha tocou. Meu coração pulou. Senti como se cada parte do meu corpo tivesse parado por um segundo, só pra ouvir melhor aquele som.
Fui até a porta. Abri devagar. E lá estava ele. Dante. De blazer escuro, camisa branca meio aberta no peito, perfume amadeirado e olhar em brasa. A mandíbula marcada. O cabelo um pouco bagunçado. E aquela postura de quem tinha vindo pra me devorar inteira, mas só se eu deixasse.
Ele travou por um segundo ao me ver.
— Porra… — ele soltou, num sussurro rouco. — Você está… inacreditável.
— Boa noite para você também — brinquei, tentando manter o tom leve. Mas minhas pernas… minhas pernas traíam toda minha fachada de calma.
Ele se aproximou, devagar. Com um pequeno buquê de rosa branca na mão.
— Para você — disse, entregando. — Porque você é paz. Até quando tudo está em guerra.
Segurei o buquê, tentando não desabar.
— Obrigada.
— Pronta?
Assenti. Peguei a bolsa. Antes de sair, Olívia apareceu na porta do corredor.
— Juízo, Isa. E se ele te olhar muito, você desvia. Ou… você encara de volta. A escolha é tua.
— Vai dormir, Olivia! — gritei, rindo, sem olhar pra trás.
Descemos. O carro dele estava parado em frente. Clássico. Preto. Misterioso. Ele abriu a porta para mim. E quando sentei, cruzando as pernas, senti os olhos dele queimando minha pele.
— Você faz ideia do que causa, Isadora?
— Não. E nem quero saber. — retruquei, mas um sorriso escapou.
No caminho, silêncio e tensão. O tipo de silêncio que diz mais do que mil palavras. O tipo de silêncio onde cada respiração conta. Onde o desejo dança entre um suspiro e outro. Eu encarei a janela. Mas sentia o olhar dele.
Sabia o que ele queria. Sabia o que eu também queria. Mas tinha algo entre nós. Algo mais profundo. Um campo minado de passado, guerra e um bebê que ele não sabia que existia.
***
O restaurante era discreto, elegante, meio escondido no coração da cidade. Luz baixa, taças reluzindo, velas tremeluzindo como promessas sussurradas. O tipo de lugar feito para encontros que queimam devagar.
Dante puxou minha cadeira, cavalheiro. Mas o toque dele no meu ombro... foi puro incêndio. Sentei, ajeitando o vestido ou tentando, porque aquele maldito tecido insistia em subir. Ele notou. Claro que notou.
— Esse vestido está me matando. — ele murmurou, a voz baixa e rouca, com um sorriso torto. — E nem é pelo decote.
— Se quiser, posso trocar por um moletom e sair correndo — retruquei, erguendo uma sobrancelha.
— E eu correria atrás.
Sorri, desviando o olhar. Foco, Isadora.
O garçom apareceu, ele pediu vinho, eu pedi um suco. Dante manteve os olhos em mim o tempo todo, como se tivesse medo que eu sumisse ali mesmo.
— Você está mais calada do que o normal. — ele comentou, depois do primeiro gole.
— Estou tentando me lembrar como… confiar. — minha resposta saiu antes mesmo de eu processar.
Ele se inclinou levemente, os cotovelos apoiados na mesa.
O ar parou. As velas tremeram. Meu coração disparou como se tivesse sido lançado numa maratona.
— Eu… acho que sim. — sussurrei. — Mas eu não era eu. E você talvez também não fosse você. E agora… a gente se encontrou no meio da bagunça.
Ele assentiu, olhos baixos por um segundo. Depois me olhou com uma intensidade que me deixou sem chão.
— Eu não quero só te proteger, Isa. Eu quero estar com você. Mesmo que demore. Mesmo que você lute contra.
— E se eu fugir?
— Eu corro atrás.
A conta veio. Ele insistiu em pagar. Saímos do restaurante com a noite se estendendo sobre nós como uma capa.
Lá fora, o ar estava frio. E mesmo assim, eu queimava.
— Quer que eu te leve pra casa? — ele perguntou, com a voz grave, os olhos brilhando sob o poste de luz.
Olhei pro carro. Olhei pra ele.
— Não.
Ele franziu o cenho, confuso.
— Quero ir com você. — completei. — Para o seu apartamento.
Ele não sorriu. Não disse nada. Só pegou minha mão com firmeza e me guiou até o carro.
***
O apartamento dele era elegante, sóbrio, cheio de livros e cheiro de madeira e café antigo e estava exatamente do mesmo jeito que me lembrava. Assim que a porta fechou atrás de mim, ele encostou ali e ficou só me olhando.
— Ainda dá tempo de mudar de ideia — ele disse, voz baixa, olhando pra minha boca.
— Eu não quero mudar.
Dei um passo. Depois outro. Até que fiquei diante dele. E naquele segundo, não éramos Dante e Isadora da guerra. Éramos dois corpos tentando lembrar como era amar. Ele segurou meu rosto. Os dedos dele passavam devagar pela minha pele. E então, sem mais palavras, ele me beijou. Um beijo que dizia tudo o que o mundo tentou calar.

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