POV Isadora Ferraz
As luzes da cidade dançavam no vidro da janela enquanto o carro deslizava pela avenida. Era estranho… depois de tudo, ainda existia beleza nas coisas. O reflexo de neon no asfalto molhado. O som abafado de música vindo de algum bar ao longe. A calma antes da próxima tempestade.
Dante dirigia em silêncio, uma das mãos firme no volante, a outra apoiada de leve na marcha. O rádio tocava baixo, uma música instrumental qualquer, só o suficiente pra não deixar o silêncio parecer pesado.
Eu mantinha o olhar na paisagem, mas sentia o olhar dele me buscando de tempos em tempos. Como se quisesse checar se eu ainda estava ali. Inteira.
— Você está bem? — ele perguntou, a voz baixa.
Assenti. Depois, neguei. Depois... respirei.
— Eu estou cansada. Mas… aliviada.
— Você foi incrível. — ele disse sem hesitar.
Virei o rosto pra ele. Os olhos escuros, atentos, iluminados pela cidade.
— Eu tinha medo de mostrar tudo aquilo.
— E mesmo com medo… você mostrou. Isso diz mais sobre você do que qualquer vídeo dos Montenegro.
Sorri. Daqueles sorrisos pequenos, cansados, mas reais. Ele esticou a mão e entrelaçou os dedos nos meus, sobre o câmbio. E ali, por um instante, o mundo ficou mais leve.
***
O restaurante era pequeno, charmoso, escondido num canto do bairro. Uma escolha da Olívia, "Nada de lugar badalado hoje, só paz”. Eles já estavam lá quando chegamos. Caio acenou de longe. Olívia segurava duas taças de vinho, uma em cada mão. Me estendeu uma assim que nos sentamos.
— Aos justos. — ela disse. — E aos que não se curvam.
— E aos vídeos bem editados. — completou Caio, erguendo a taça.
Brindamos. E por alguns minutos… rimos. Conversamos. Fingimos que não éramos alvos de uma família bilionária com sede de sangue.
Mas o celular do Dante vibrou. O meu também. E o da Olívia. E o do Caio.
Caio olhou primeiro. E soltou um riso curto, nervoso.
— Alguém está surtando.
Abri a notificação. E ali estava:
“Heitor Montenegro responde: 'Manipulação emocional de uma mulher desequilibrada'.”
Meu estômago virou. Dante apertou minha mão sob a mesa. Olívia bufou.
— Ele não vai parar. — sussurrei.
— E nem a gente. — respondeu Dante. — Mas hoje... só janta. Amanhã, a guerra continua.
***
POV Heitor Montenegro
A taça de uísque trincou entre meus dedos, mas eu nem senti. A TV exibia o vídeo. O maldito vídeo.
Isadora com voz calma. Imagens cortadas. Provas. Áudios inteiros. O povo nas redes, gritando, divididos. Uns a chamando de guerreira. Outros dizendo que era tudo encenação. Mas ninguém... ninguém mais estava do nosso lado por completo.
— Ela está matando a gente com doçura. — murmurei, encarando o rosto dela no vídeo.
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