POV Isadora Ferraz
Saí do apartamento do Dante com o coração batendo em compassos irregulares. Não sabia se era a noite que ainda queimava na pele ou o medo do que vinha a seguir. O mundo lá fora parecia o mesmo, mas eu não era mais.
Peguei um táxi direto pro escritório da Olívia. Mandei uma mensagem avisando que passaria a manhã lá.
A recepção me pareceu mais fria que o normal ou era só a minha paranoia me vestindo com espinhos. A recepcionista me ofereceu um sorriso contido.
— A Dra. Olívia está na sala de reuniões. Pode subir, senhora Isadora.
Subi.
E cada degrau me lembrava do quanto aquela guerra era real.
A porta da sala de reuniões estava entreaberta. Respirei fundo antes de empurrá-la.
— Isa. — Olívia levantou de imediato. Seus olhos varreram meu rosto e depois o resto do meu corpo, como se procurasse hematomas invisíveis. — Vem, senta aqui.
Dois advogados estavam à mesa. Um homem com cabelo grisalho bem cortado, olhos atentos e pasta preta na frente. Ao lado dele, uma mulher de blazer vinho e olhar tão afiado que parecia cortar o ar.
— Isadora, prazer. Sou Adriana, especialista em Direito de Imagem e Violência Psicológica. E esse é Dr. Mauro, nosso civilista de guerra.
Eles apertaram minha mão com firmeza. Mãos de quem já segurou verdades pesadas demais.
Sentei. Olívia me passou uma garrafa d'água. Me senti uma ré, mesmo sendo a vítima.
— Nós assistimos os vídeos divulgados pelos Montenegro — começou Adriana. — E já temos uma análise preliminar das edições. Eles estão em vantagem narrativa, mas...
— Nós temos as provas reais — completei.
— Sim. — Mauro sorriu de canto. — E o momento de virada depende de como e quando vamos soltá-las.
Olívia se recostou na cadeira.
— A gente precisa pensar estrategicamente. A bomba deles já estourou. Agora é sobre como desacreditar o material deles e apresentar a verdade com respaldo jurídico.
— E o processo de divórcio? — perguntei.
— Vamos entrar com ele amanhã. — Mauro confirmou. — Pedido de urgência por violência emocional, tentativa de manipulação de narrativa, assédio psicológico e risco à integridade física.
— Vamos pedir medidas protetivas também — Adriana acrescentou. — Principalmente agora que ele te expôs publicamente como emocionalmente instável. Isso é grave. Cruel. E perigoso.
Eu senti a mão de Olívia apertar meu joelho discretamente. Uma âncora.
— Vocês acham que… que eu consigo sair disso sem perder tudo? — perguntei, mais pra mim do que pra eles.
— Você já perdeu o que tinha que perder — Olívia falou antes deles. — Agora é hora de retomar.
Adriana me olhou com aquela firmeza que só mulheres calejadas conhecem.
— Você vai vencer, Isadora. Vai levar o nome de volta. A paz. E se depender de mim, esse homem vai responder por cada centímetro de abuso.
Engoli em seco. Me ajeitei na cadeira.
— Então vamos começar.
Abri minha bolsa e tirei o pen drive com as gravações reais.
— Aqui está a verdade.
E naquele instante, pela primeira vez em semanas, senti algo que quase tinha esquecido como era.
Esperança.
***
POV Isadora Ferraz
O ponteiro do relógio arrastava os segundos como se estivesse com preguiça de existir. 13h17. A cidade lá fora seguia no automático, mas aqui dentro, cada passo meu parecia calculado demais. Entrei na editora com um casaco que me fazia sentir menos exposta, menos... frágil. Me escondi dentro dele como quem se esconde da própria sombra.
Ninguém falou muito. Só acenei com a cabeça pra recepcionista e segui até minha sala. Os corredores estavam mais silenciosos do que o normal. Ou talvez fosse eu. Talvez meu cérebro tivesse ativado algum tipo de isolamento automático, tipo um modo de sobrevivência.
Sentei. Liguei o computador. Abri o documento de revisão. Mas não li uma linha sequer.
As palavras embaralhavam. O monitor parecia longe. E eu... bom, eu só queria continuar fingindo que estava bem. Às horas passaram e eu não percebi que já era fim da tarde.
Foi quando ouvi os três toques na porta. Baixinhos. Quase tímidos. Nem precisei olhar. O coração reconheceu antes dos olhos.
— Bati — disse Dante, parado no batente, aquele sorrisinho de canto nos lábios. — Mas você estava muito concentrada no... seja lá o que fosse isso.
Soltei a caneta devagar. Meu peito apertou.
— Estava tentando distrair a cabeça. — respondi.
Ele entrou, fechando a porta com cuidado. Andou até minha mesa como quem já conhece o caminho e conhece mesmo.
— Pensei em passar aqui antes da gente ir pra casa da Olívia. Ela me mandou mensagem, disse que já está com tudo preparado com Caio.
Assenti. Minhas mãos continuavam inquietas sobre o teclado, como se digitar algo aleatório pudesse me salvar daquele instante.
— Você está bem?
Essa pergunta. Sempre essa pergunta.
— Aqui. Quando estiver pronta, é só começar a ler o roteiro que escrevemos com base nos vídeos originais. Pode ajustar do seu jeito, claro. A voz tem que ser sua.
Peguei as folhas que estavam impressas. Minhas mãos tremiam um pouco, mas minha voz… minha voz estava onde deveria.
Dante ajustou o microfone próximo à minha boca. O cheiro dele se misturava com o calor da minha ansiedade. Quando nossos olhares se cruzaram, vi algo ali: orgulho. Talvez até… esperança.
— Só fala com o coração. — ele disse, baixinho.
Assenti. Caio levantou os dedos em contagem regressiva: três, dois, um. A luz vermelha acendeu. E eu comecei.
— Meu nome é Isadora Ferraz Montenegro. E essa... é a minha verdade.
Minha voz saiu baixa, mas firme. Sem efeitos. Sem filtro. Só a minha alma, crua.
— Nos últimos dias, imagens minhas circularam pelas redes sociais. Vídeos. Áudios. Fragmentos. Montagens de momentos em que estive assustada, vulnerável, em pânico. Usaram a minha dor como espetáculo. Cortaram minha voz. Manipularam o que eu vivi. Mas agora... agora vocês vão ouvir tudo. Por inteiro.
Caio começou a soltar os vídeos reais. As imagens editadas dos Montenegro no canto da tela. E ao lado, as versões completas, verdadeiras. Heitor me cercando. Elena me empurrando. Célia sorrindo enquanto eu gritava. Tudo cronometrado, sincronizado com minha narração.
— Eu fui manipulada, apagada, silenciada. Fui chamada de louca por me recusar a continuar num ciclo de abuso. Mas essa sou eu. Chorei. Gritei. Me defendi. E agora… eu falo. Com minha voz. Com minha verdade. Chega de máscaras. Chega de medo.
A cada palavra, era como se algo dentro de mim se libertasse. Como se eu estivesse limpando minha história do veneno que eles despejaram nela.
— Não quero pena. Nem justiça com as próprias mãos. Só quero que a verdade apareça. E que nenhuma mulher precise passar pelo que eu passei em silêncio.
A última frase saiu num sussurro. A luz vermelha apagou. E o silêncio que se seguiu foi absoluto. Um silêncio pesado, denso, cheio de tudo que ficou por dizer. Dante foi o primeiro a se mover. Tocou meu ombro com cuidado.
— Foi perfeito, Isa.
Eu apenas respirei fundo. Não chorei. Não tremi. Só respirei. Porque naquele momento, pela primeira vez em muito tempo, eu era minha.
Minutos depois, o vídeo já estava renderizando. Caio editava os últimos detalhes com o cuidado de quem segura dinamite. Olívia falava ao telefone com um jornalista independente confiável, que já tinha se posicionado a nosso favor antes. Tudo estava pronto.
Dante se aproximou de mim, um copo d’água na mão.
— Você quer ver antes de subir?
— Não. — balancei a cabeça. — Eu já vivi tudo aquilo. Agora… deixa o mundo ver também.
Ele me olhou por um tempo, depois assentiu. Me entregou o copo, mas seus dedos tocaram os meus por um segundo a mais. Um toque que dizia tudo sem dizer nada.
E quando Caio finalmente clicou em “publicar”, o ar na sala mudou.
— Está no ar. — ele avisou, olhando pra tela.
Um silêncio de guerra se instalou. Não o silêncio de quem espera a paz… mas de quem sabe que a batalha só começou.

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