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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 7

POV Isadora Ferraz

Acordei suando. O lençol torcido ao meu redor parecia um nó mal desfeito. No quarto da Olívia, o silêncio tinha outro cheiro. Menos tenso. Mais... solitário.

Mas no sonho? No sonho, era outra vida.

Acordei no nosso antigo apartamento, o de antes da mansão. Onde as paredes eram brancas e os móveis, improvisados, mas a gente ria de tudo. Heitor apareceu na porta da cozinha, de cueca samba-canção e sorriso torto, segurando um buquê de flores misturado com um pacote de café.

— Eu não sabia se você precisava mais de afeto ou cafeína. — ele disse, rindo.

Na mesa, panquecas queimadas. Ele nunca soube cozinhar. Mas naquele dia, ele tentou. Só porque eu tinha recebido a resposta de um concurso de contos e não tinha passado.

— Você é brilhante, Isa. Não deixa um “não” te convencer do contrário. — ele me disse, me puxando pro colo dele. E ali, no abraço que cheirava a travesseiro e futuro, eu jurei que era amor.

Naquela época, ele não gritava. Ele sussurrava ideias de nomes para os filhos que nunca tivemos. Naquela época, ele me ouvia. Me lia. Me queria. Naquela época, eu ainda acreditava que ele me amava. O sonho desbotou com o cheiro de lavanda do travesseiro da Olívia. A realidade voltou como uma lâmina fria. E eu entendi: o amor morreu. E eu fui a última a ser avisada.

Mas agora... agora eu sabia.

Me levantei.

Cabelos emaranhados, olhos inchados. Mas havia um blazer no armário de Olívia. Azul-marinho. Sóbrio. Forte. Tomei um banho rápido e o vesti como quem coloca armadura.

Prendi o cabelo, passei um batom leve. O suficiente pra dizer: “eu tô aqui.”

Olívia entrou com uma caneca de café.

— Sonhou com ele?

Assenti.

Ela me entregou a caneca e beijou minha testa.

— Vai lá, Isa. Mostra pra eles que teu fim foi só o prólogo do teu recomeço.

Saí pela porta com o coração apertado e as costas eretas. Porque mesmo trincada, eu era ponte. Mesmo sozinha, eu era travessia.

Hoje, eu ia trabalhar.

Hoje, eu ia começar de novo.

O elevador do prédio da Olívia parecia demorar mais do que o normal. Meu reflexo no espelho metálico me encarava como quem ainda não se reconhecia. O blazer era emprestado, a bolsa também. Mas o que eu carregava era meu: um passado despedaçado e uma vontade silenciosa de viver.

Na portaria, o porteiro sorriu. Eu tentei retribuir. Ainda não sabia sorrir com naturalidade.

O Uber me esperava na calçada. Entrei com a pasta no colo e os dedos trêmulos. O prédio da Vertigem apareceu no horizonte como uma fortaleza de vidro. Uma parte de mim queria sair correndo, mas a outra... bem, a outra já estava cansada de correr dos lugares onde deveria estar.

Subi.

No andar da editora, o mesmo recepcionista da entrevista me deu um “bom dia” cheio de formalidade. Eu agradeci com um aceno curto. O elevador interno abriu e revelou Dante, já de camisa dobrada até os cotovelos e xícara na mão.

— Isadora. — disse com a voz baixa, como quem fala o nome de alguém que quer proteger. — Dormiu bem?

— O suficiente pra não desmoronar na recepção. — tentei brincar.

Ele sorriu. Aquele sorriso sem esforço, que parecia abraçar sem tocar.

— Vem. Deixa eu te apresentar à equipe.

***

A sala de reuniões era cheia de gente que eu nunca tinha visto, mas que conhecia meu nome. Um burburinho de olhares curiosos, sorrisos educados e apertos de mão que duravam o tempo exato entre o desconforto e o respeito.

Dante conduziu a reunião com maestria. Falou de mim como quem descreve uma joia rara achada num brechó esquecido. Citou meus contos, meu estilo, minha coragem literária e, por um segundo, eu me perguntei se ele falava de mim ou da mulher que eu ainda tentava reencontrar.

Depois da reunião, ele se aproximou.

— Preciso te mostrar sua sala.

— Sala?

— É pequena. Mas tem janela. E vista. E liberdade. — disse, e piscou.

Me conduziu até uma porta de madeira clara. Abriu, como quem entrega um presente. A sala era modesta, mas acolhedora. Um computador, uma poltrona surrada, uma estante esperando livros. E um janelão com vista pro caos da cidade.

— Pode redecorar como quiser. Inclusive, tirar essa poltrona horrível. — Dante brincou.

— Acho que vou manter. Tem cara de alguém que já escutou muitos desabafos.

Ele riu, mas ficou em silêncio por um instante. Aquele tipo de silêncio que tem peso. Que carrega história.

— Tudo bem? — perguntei, baixinho.

Ele desviou os olhos pro vidro.

— Às vezes a gente olha pra cidade e parece que tá todo mundo vivendo certo, né? Mas aí... basta abrir a janela. E ver que tá todo mundo remendando alguma coisa.

Concordei com a cabeça. Porque eu também estava cheia de costuras mal feitas.

— E você? Tá remendando o quê? — ele perguntou.

Pensei em dizer "meu coração", mas saiu:

— Uma mulher que esqueceu quem era. Mas que tá tentando lembrar.

O olhar dele voltou pros meus olhos. E ali, no meio da editora nova, com cheiro de papel e café fresco, eu senti.

Não era amor ainda.

Era terreno fértil.

***

O dia inteiro na editora passou como se eu estivesse fora do corpo. Revisando contratos, conhecendo os departamentos, sorrindo mais do que estava acostumada. Mas era sempre quando eu voltava pra minha sala que as coisas mudavam.

— Você não atendeu minhas ligações. — Ele cuspiu as palavras, os olhos queimando em mim. — Você acha que pode simplesmente desaparecer?

Minha garganta secou. Eu ia responder, mas Dante deu um passo à frente.

Ele estava parado ali, braços cruzados, os olhos fixos em Heitor como se estivesse olhando um inseto.

— Está perdido, senhor? — perguntou, com uma calma que era mais ameaçadora que um grito.

Heitor virou pra ele, o olhar cheio de nojo.

— Quem é você para se meter?

O sorriso de Dante foi lento. Perigoso.

— Sou o homem que garante que ela trabalhe em paz. O homem que não permite que ninguém ultrapasse certas linhas. Inclusive maridos covardes.

Heitor soltou um riso curto, sem humor.

— Você não sabe com quem está falando.

Dante deu um passo. O ar pareceu vibrar.

— Eu sei exatamente com quem estou falando. — Ele chegou tão perto que eu quase parei de respirar. — Heitor Montenegro. O marido de fachada. O homem que faz papel de santo na frente dos outros, mas dentro de casa não passa de um lixo.

O silêncio caiu como uma bomba. Eu estava paralisada, mas, por dentro, algo gritava. Gritava de raiva, de vergonha, de alívio. Um funcionário apareceu no corredor, os olhos arregalados. Outro se aproximou. Dante não piscou. Inclinou a cabeça, como se analisasse Heitor.

— Me conta... Você veio aqui pra tentar controlar a Isa? — Ele abaixou o tom, mas cada palavra era uma lâmina. — Ou veio porque finalmente percebeu que perdeu o controle?

Heitor travou. O olhar dele saltou pra mim, esperando cumplicidade. Mas eu não me mexi. Segurei a mesa com força, os nós dos dedos brancos.

Dante avançou mais.

— Porque aqui... — Ele abriu os braços, olhando ao redor. — Isso aqui é meu território. Aqui você não manda. Aqui, você é só um covarde patético que precisa gritar pra se sentir homem.

Heitor tremeu. O rosto dele virou um mapa de raiva e humilhação.

— Isso não vai ficar assim — ele rosnou, recuando um passo.

Dante deu um meio sorriso.

— Já ficou. Agora sai da minha editora.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Heitor me olhou uma última vez. Mas eu não dei nada pra ele. Nenhuma palavra. Nenhum gesto. Só um vazio que eu não tinha mais medo de mostrar.

Ele virou e saiu, batendo a porta com tanta força que o vidro tremeu. Dante ficou parado, respirando fundo. Me olhou. Eu tremia, mas não era medo. Era raiva. Era um grito engasgado há anos. Uma lágrima caiu, quente, sozinha. Ele veio até mim. Segurou meu rosto com as duas mãos, firme, mas tão gentil que quase me desmontou.

— Acabou — ele sussurrou, a voz baixa, quente. — Aqui, você tá segura.

Eu fechei os olhos. Soltei o ar. E, pela primeira vez, senti que não precisava lutar sozinha.

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