POV Isadora Ferraz
O grito ficou preso na garganta, mas eu o senti cortando tudo por dentro. O impacto foi um soco seco na realidade. O carro girou como um brinquedo desgovernado. O mundo virou borrão... luzes, metal, dor. Depois… silêncio.
Silêncio demais.
Minha cabeça latejava. O ar parecia preso, denso. Um gosto de sangue na boca. Os vidros estilhaçados brilhavam no meu colo como cristais assassinos. E então...
— Dante! — gritei, com toda a força que consegui. — DANTE?!
O banco ao lado estava vazio. A porta dele havia se aberto no impacto. Eu não o via. O pânico subiu como uma maré venenosa. Tentei soltar o cinto, mas minha mão tremia. A trava parecia soldada. O som do motor morrendo, o cheiro de fumaça. E o medo. O medo sufocava.
— Dante, por favor, responde! — minha voz rachava entre soluços.
Consegui me soltar. As pernas fraquejaram quando empurrei a porta. Me arrastei para fora, tropeçando no asfalto rachado. O lado direito do carro estava destruído. O poste inclinado, um arranhão de ferro contra o céu escuro.
E então eu o vi. Ele se erguia do chão, cambaleando. Sangue na testa, o terno rasgado no ombro. Mas vivo.
— Dante! — corri até ele, mancando, os olhos nublados. — Você está bem? Você está bem?!
Ele piscou devagar, me reconhecendo.
— Isa...? — a voz dele era arranhada. — Você está ferida? Está sangrando...!
— Não importa, você precisa sentar, Dante, você...
— Isadora! — ele segurou meus braços, ofegante. — Você está com... sangue nas pernas.
Parei. O tempo parou. Olhei para baixo. Um filete escuro escorria pela lateral da minha coxa, manchando a barra do vestido. Pequeno. Mas suficiente pra me gelar a espinha.
— Não. Não. Não. — levei a mão à barriga instintivamente.
Ele me olhou. Os olhos dele se arregalaram. Mas não disse nada. Não perguntou. Porque não fazia ideia.
— Isa...? — ele sussurrou, confuso. — Você está grávida...?
Eu não consegui responder. As lágrimas vieram. Despencaram com a fúria que eu estava segurando há semanas.
— Eu não posso perder, Dante. Não agora. Por favor. Por favor...
— Você não vai. Me escuta. Me escuta! — ele me segurou firme, mesmo ferido. — Você e esse bebê vão ficar bem. Eu vou dar um jeito. Só respira.
As sirenes ao longe começaram a se aproximar. A fumaça se espalhava no ar, junto com o cheiro metálico da tragédia. Eu me encolhi contra ele. O corpo dele era calor, era casa, mesmo naquele caos. E ele me envolveu, como se pudesse proteger tudo, como se fosse capaz de deter até o destino.
— Foi ele, não foi? — ele disse, rouco. — Foi o Heitor.
Eu não respondi. Mas meus olhos disseram tudo. Dante fechou os olhos. Apertou a mandíbula. E sussurrou, com uma fúria contida:
— Ele acabou de cavar a própria cova.
***
A sirene da ambulância era um lamento cortando a madrugada. Eu estava deitada na maca, com a mão no ventre, os olhos fixos no teto do veículo que tremia a cada curva. Do meu lado, Dante. Tinha um corte feio na testa, o ombro enfaixado. Mas o olhar dele estava inteiro em mim.
— Vai ficar tudo bem, Isa — ele repetia, como um mantra. — Vai ficar tudo bem.
Mas será? O medo fervia sob minha pele como febre. O sangue. A dor baixa no ventre. O acidente. Heitor. Tudo aquilo podia tirar de mim... o que eu nem tive tempo de sonhar direito. Quando chegamos no hospital, fomos separados. Eles me colocaram numa sala fria, com luzes que ardiam nos olhos e vozes apressadas em torno de mim.
— Precisamos fazer uma ultrassonografia agora. — disse uma médica de jaleco branco e semblante tenso. — Você disse que está grávida de quanto tempo?
— Quase dois meses. — sussurrei.
— Algum sangramento? Dor?
Assenti com a cabeça, engolindo a angústia.
— Ok. Vamos monitorar os batimentos cardíacos do feto. Fica tranquila, vamos cuidar de você.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”