POV Isadora Ferraz
O apartamento estava mergulhado numa calma rara. As luzes baixas, o cheiro de café recém-passado, e o som distante da cidade lá fora me faziam esquecer, por um segundo, de tudo que o mundo lá fora ainda tentava cobrar de mim.
Eu estava sentada no sofá do Dante, com uma manta sobre as pernas e o celular entre os dedos. A notificação da chamada perdida de Lorenzo ainda piscava como um lembrete de que o passado, ou talvez o futuro, estava batendo à minha porta com força.
Meu irmão. A palavra ainda parecia... surreal.
Sete anos convivendo com a ausência. Anos achando que estava sozinha no mundo. Sem raízes. Sem sangue. Sem laço algum além dos que inventei pra sobreviver. E agora, do nada, tinha um sobrenome italiano me chamando de irmã.
Lorenzo Fabbri.
As fotos de perfil dele pareciam saídas de uma revista de negócios. Um homem elegante, seguro, com olhos que pareciam estranhamente familiares. O mesmo formato que os meus, talvez? A mesma curvatura de sobrancelha? A mente viaja quando o coração ainda não sabe onde pisar.
Dante saiu do quarto nesse momento, já de pijama, cabelo bagunçado, um sorriso pequeno no rosto.
— Você ainda está pensando nele, né?
Assenti.
— Estou criando coragem para retornar a ligação. É... muita coisa. — suspirei. — E se ele não for quem diz ser? E se tudo isso for um engano?
— Ou... e se ele for mesmo seu irmão? — Dante sentou ao meu lado, com o braço quente envolvendo meus ombros. — E se esse for o começo de uma parte sua que você nunca soube que existia?
Fechei os olhos por um instante. Me deixei respirar o conforto dele.
— Eu só... estou com medo. — confessei. — Medo de acreditar que posso ter alguém. Medo de descobrir que não era pra eu ter ninguém, sabe?
Ele me apertou um pouco mais.
— Você tem a mim. Tem Olívia. Caio. Tem esse bebê. E, se quiser, pode ter o Lorenzo também. Mas tudo no seu tempo. Sem pressão.
Abri os olhos. Sorri, mesmo com o coração pesado.
— Você fala como se tivesse aprendido a viver com esperanças frágeis.
— Aprendi. — ele respondeu, olhando nos meus olhos. — Contigo.
O silêncio que veio depois não foi vazio. Foi cheio. Cheio de possibilidades. De feridas curando. De inícios que não dependem mais do fim de ninguém.
O celular vibrou de novo: “Lorenzo Fabbri: Quando se sentir pronta, me diga. Estarei aqui.”
Eu encarei a tela como se ela pudesse me dar as respostas que a vida nunca me entregou. E, de repente, alguma coisa em mim… cedeu. Como se o medo tivesse esgotado sua força.
Peguei o celular com as mãos firmes. Dante ainda estava ao meu lado, mas em silêncio — me dando o espaço, respeitando o tempo.
— Eu tô pronta. — falei, baixo. Mas do tipo de baixo que carrega certeza. — Quero falar com ele. Agora.
Ele apenas assentiu. E foi o suficiente.
Toquei na mensagem. Meus dedos tremiam, mas o coração estava firme. Digitei: “Lorenzo… posso te ligar agora?”
A resposta veio em segundos: "Sim. Já estou pronto para você, sorellina.”
“Sorellina.” (Irmãzinha).

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