POV Isadora Ferraz – Dois dias depois
O dia amanheceu nublado, como se o céu também estivesse carregando segredos demais.
Estava sentada na sala de estar do apartamento do Dante, com um chá morno nas mãos e o noticiário murmurando ao fundo. As palavras se misturavam com o zumbido na minha cabeça, até que ouvi.
"Imagens de câmeras de segurança mostram um veículo em alta velocidade, momentos antes do acidente envolvendo Isadora Ferraz, ainda casada com o empresário Heitor Montenegro..."
O chá quase caiu da minha mão.
— Dante! — gritei, já me levantando.
Ele apareceu em segundos, o celular ainda na mão, camisa amassada de tanto mexer nos arquivos com Caio durante a madrugada.
— O que foi?
Apontei pra TV. As imagens tremidas mostravam a rua... e o carro. Um sedan escuro. Mesmo modelo que o Heitor costumava dirigir, só que com placas cobertas por uma fita preta. Mas o padrão de direção... o horário… tudo batia.
— Isso foi… isso foi no momento exato, Dante.
Ele apertou os olhos. A mandíbula travou.
— Eu sabia. Eu sabia que foi ele.
— Mas… tem certeza?
Ele pegou o controle e aumentou o volume.
"A polícia confirmou que o carro utilizado no momento da colisão foi alugado dois dias antes do acidente, sob um nome falso. Porém, o IP da reserva foi rastreado… e estava vinculado ao endereço IP de um funcionário da empresa Montenegro Group."
O mundo pareceu parar. Dante me encarou.
— Isso é o começo, Isa. A casa vai cair.
Antes que eu pudesse responder, meu celular vibrou. Uma mensagem de Olívia.
“A polícia acabou de me ligar. Eles querem que você e o Dante prestem depoimento amanhã. A investigação foi oficialmente reclassificada como atentado doloso. Isso é GRAVE. Respira. Estamos com você.”
Me sentei devagar. A respiração presa no peito. Era isso. A guerra havia mudado de estágio. Agora não era mais sobre reputações. Era sobre liberdade. Justiça. Risco. E mesmo com o divórcio ainda preso na teia dele, com uma assinatura negada por pura crueldade… a verdade estava vindo. E ela vinha com sangue nos olhos.
***
POV Heitor Montenegro
O som da TV invadiu o silêncio da casa como uma granada. O nome dela. O meu. E depois, a palavra que eu mais temia:
"Investigação por tentativa de homicídio."
Segurei o controle com tanta força que senti o plástico ranger. O repórter falava sobre rastreamento de IP, sobre aluguel de carro em nome falso, sobre imagens... provas. Pragas.
Célia entrou na sala, descalça, com uma taça de vinho que tilintava no ritmo do veneno.
— Eu avisei. Disse para não perder o controle. — ela sussurrou, como se estivesse se divertindo com a tragédia.
— Cala essa boca. — rosnei. — Você acha que isso vai me parar?
— Não, Heitor. Eu acho que isso vai te afundar.
Levantei. A taça dela caiu no chão com o meu passo. Vinho escorreu como sangue pelo mármore branco.
Peguei o celular. Liguei para o advogado. O desgraçado demorou a atender.
— Se vire. Enterre essa história. Faça sumir. Eu não vou ser preso por ela.
Do outro lado, silêncio.
— Heitor… eles têm provas. Estão indo atrás da assinatura no aluguel. E da filmagem da garagem. — ele suspira, demora alguns segundos... — Estou indo aí, precisamos conversar.
A garganta travou. Um gosto amargo subiu até minha boca. Isadora. Ela era o começo e o fim de tudo isso. Eu estava prestes a perder a guerra. Mas ainda tinha cartas na manga. Porque monstros não morrem fácil. E Montenegro… não cai de joelhos.
— Não. Mas pode te dar margem para alegar desequilíbrio emocional. Descontrole momentâneo. O fim do casamento, a ex-mulher que te traiu, a pressão da mídia... você pode parecer um homem em colapso, não um assassino.
— Eu não tentei matar ninguém. — rosnei.
— Mas quase conseguiu. — ele rebateu. Seco. Cruel. — O poste quase atravessou o lado do motorista. Se aquele homem morre, você está frito.
Fiquei em pé. Andei de um lado ao outro da sala como um animal enjaulado. O peso da realidade me esmagava.
— E se eu assumir o erro?
Bruno levantou os olhos, como se não esperasse ouvir aquilo.
— Depende de como. Se você fizer isso nos seus termos... talvez consiga alguma empatia pública. Talvez o juiz veja arrependimento. Mas se esperar mais, vão pintar você como um sociopata obcecado. E aí, Heitor… nem o diabo vai querer te defender.
Aquela frase me congelou por dentro. Ele juntou os papéis, guardou tudo com precisão.
— Essa é a única chance que você tem de sair disso com alguma dignidade. Assine o divórcio. Faça uma nota pública. Mostre que quer seguir em frente. E procure um psiquiatra. Um bom. Agora.
— Você quer que eu me declare louco?
Ele deu de ombros.
— Não louco. Instável. Frágil. Um homem destruído pelo fim de um amor. As pessoas adoram perdoar homens tristes.
Fiquei em silêncio. A garganta fechada. As mãos trêmulas. Assinar significava o fim. O fim do controle. O fim dela como "minha esposa". Mas talvez... fosse o único recomeço possível.
Peguei a caneta.
— Você vai assinar? — ele perguntou, baixo.
— Não por ela. — murmurei. — Mas por mim.
E assinei.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”