POV Isadora Ferraz – Casa da Olívia
O cheiro de bolo de cenoura com cobertura de chocolate me pegou antes mesmo de a porta abrir. E quando abriu, Olívia estava ali, de moletom velho, cabelo preso num coque desleixado e aquele olhar que dizia tudo sem precisar de uma palavra.
— Entra. — foi tudo que ela disse.
E eu entrei.
Soltei a mochila no chão da sala como se ela pesasse toneladas. Meu corpo inteiro pesava. Meus olhos ardiam. E minha alma... ah, minha alma tava exausta de ser forte o tempo todo.
— Você quer falar sobre isso? — ela perguntou.
— Não. — respondi. — Quero bolo.
Ela riu. E, por um instante, o mundo pareceu menos cruel.
Sentei na mesa da cozinha, peguei um pedaço generoso e enfiei a colher sem cerimônia. A doçura veio como um abraço.
— Ele só pensava no maldito divórcio, Oli. Como se isso fosse a resolução de todos os problemas. Como se minha cabeça não estivesse um caos, como se eu não estivesse... grávida e aterrorizada. Como se bastasse assinar um papel e puff — felicidade!
— E você falou isso pra ele?
— Eu gritei. Quase joguei o carregador nele. Serve?
Ela bufou. E sentou ao meu lado.
— Isa… o Dante parece mesmo te amar. Mas ele tem os traumas dele também. Isso não desculpa nada, mas talvez explique.
— Eu também tenho os meus. E mesmo assim, estou tentando não explodir tudo que toca em mim.
Silêncio. O tipo de silêncio que só quem é lar sabe dar.
— Fica aqui o tempo que quiser. — ela disse, e foi o suficiente para eu não me sentir tão sozinha.
***
POV Dante Harrison – Apartamento vazio
O silêncio cortava.
Eu ainda conseguia sentir o cheiro dela no quarto. O travesseiro torto, a xícara esquecida na pia, o livro pela metade no braço do sofá. Pequenas presenças dela que agora só gritavam ausência. Voltei para o apartamento algumas horas depois e percebi que ela havia levado as poucas coisas dela que estavam finalmente criando espaço no meu apartamento.
Eu fui um idiota.
Fiquei tão obcecado pelo fim do casamento dela com Heitor que não enxerguei o que vinha depois. Como se o "livre" fosse o final feliz. Como se ela não carregasse dores mais profundas do que qualquer papel assinado.
Ela me olhou com medo. Medo de mim. E eu não soube o que fazer com isso. Bati a porta do armário com força. Não adiantou. O eco da voz dela ainda vibrava na parede.
"Você só pensou em você, Dante!" Talvez ela tenha razão.
Peguei o celular. Abri o contato dela. Digitando... Apaguei. Repeti. Apaguei de novo. Eu não sabia o que dizer. Pela primeira vez, eu, o homem cheio de respostas, estava mudo.
Sentei na beirada da cama, o colchão ainda com a marca do corpo dela. E desejei... só desejei que ela voltasse. Mas dessa vez... não para me completar. Para me ensinar de novo a ser alguém digno de ser amado.
***
POV Isadora Ferraz – Editora
O som do salto ecoando no corredor era a única coisa que me mantinha centrada. Um, dois, três passos, respira. Um, dois, três... finge que nada aconteceu.
Voltar para editora era como tentar andar numa ponte quebrada com salto agulha. Todo mundo me olhava. Alguns com pena, outros com curiosidade. Mas eu fingia que não via. Não podia me dar o luxo de fraquejar. Não ali.
Meu cabelo estava preso num coque impecável, blazer estruturado e batom vinho. A armadura perfeita. Porque por dentro… só cacos.
Cheguei na minha sala, deixei a bolsa na poltrona e abri o notebook. Café. Planilhas. Reuniões. Era isso. Era só isso que eu queria hoje.
— Isa... — ouvi a voz baixa, grave, hesitante.
Meu coração reconheceu antes da minha cabeça. Levantei os olhos. Lá estava ele. Dante. Na porta, com a mesma camisa azul-marinho que ele usava no nosso primeiro jantar fora.
Eu mantive o rosto neutro. Treinado. Frio.
— Bom dia. — disse, como se fosse só mais um funcionário qualquer.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”