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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 70

POV Elena

O espelho do quarto refletia mais do que minha imagem, ele cuspia minhas derrotas. Eu encarei meu reflexo com a mesma frieza com que encarei tantas outras mulheres que ousaram cruzar o caminho dos Montenegro. Mas agora… agora era diferente. Heitor estava distante. Frio. Gelado. Como mármore rachado. Fazia dias que ele não me tocava. Que não dizia meu nome com desejo. Nem com ódio. Só silêncio. Silêncio e esse olhar perdido. Como se ainda sentisse o cheiro da maldita Isadora nos travesseiros.

Revirei os olhos e mordi o lábio inferior, impaciente. Como ele podia ainda pensar nela? Depois de tudo? Depois da exposição, da humilhação pública, dos vídeos? Depois de tudo que eu fiz por ele? Sim. Eu fiz por ele. Eu menti. Eu ajudei a construir a narrativa. Eu editei com Célia. Eu segurei o caos dentro da casa Montenegro enquanto o mundo lá fora desmoronava. E o que eu ganhei? Silêncio. Frieza. Solidão.

Me levantei, andei até a penteadeira e encostei os dedos nas pérolas do colar que ele me deu no início do nosso relacionamento. "Você é a única mulher que eu confio, Elena." Ele disse isso uma vez. Uma única vez. Mas agora? Agora ele me olhava como se eu fosse uma sombra. E o pior? Eu sentia inveja. Inveja da destruição que Isadora causava só de existir. Mesmo caída, mesmo arrasada… ela ainda era lembrada.

Eu era o bastidor. O silêncio atrás da máscara. O disfarce perfeito. Soltei uma risada amarga.

— Você venceu, Isadora. — murmurei para o espelho. — Mas o jogo ainda não acabou.

Porque no fundo… eu ainda acreditava que podia ter Heitor. Mesmo que quebrado. Mesmo que desfigurado pelo ódio. Mesmo que fosse pelo vício do controle. Ele era minha obsessão. E obsessões... não acabam fácil. Mas havia um medo, esse medo idiota que crescia no meu peito. E se ele… desistisse? Se assinasse o divórcio? Se abrisse mão dela? Se escolhesse sumir com tudo? E eu… eu ficasse aqui. Presa. Sem nada além da lembrança de um homem que nunca foi meu de verdade?

Minhas mãos tremiam. Não por amor. Mas por perda. Porque não há dor maior do que perder uma guerra sem nem ter sido notada como ameaça. Eu sou ameaça. Sempre fui. Só preciso lembrar a todos disso. Principalmente... a ele.

***

POV Heitor Montenegro

Whisky barato. Ou talvez fosse o caro. Já não sabia mais. O gosto era o mesmo: amargo. Assinei o papel. Assinei o maldito papel. Isadora… Ferraz. Nem Montenegro mais ela é. Aquele nome que ela carregava por sete anos agora escorria pelo ralo, feito lágrima misturada com sangue.

E eu fiquei. Sozinho. Vazio. Sem ela. Ela era meu chão, meu caos, meu vício. E agora ela era só ausência, um vazio tão denso que fazia peso no ar. A sala girava. O álcool queimava na garganta, mas era a falta dela que me devastava por dentro. Encostei a garrafa nos lábios, e vi o rosto dela. O sorriso. O vestido azul da primeira noite. O cheiro de jasmim. As mãos pequenas. A risada que ela soltava quando eu fingia ser romântico, só para ouvir de novo.

A dor era uma presença viva. E então, a voz.

— Heitor… — suave, sedosa. Como uma promessa maldita.

Elena... Sempre aparecia quando eu estava quebrado. Sempre com a doçura certa, o toque certo. Como veneno em taça de cristal.

— Você está mal… — ela disse, se aproximando. As mãos nos meus ombros. A pele quente demais. Os olhos escuros dizendo tudo que eu queria ouvir.

— Eu estou sempre mal. — minha voz saiu arrastada, quebrada.

— Não precisa ser… — ela sussurrou, e roçou a boca na minha têmpora.

***

POV Elena

O sol se infiltrava preguiçoso pelas frestas da cortina, dourando a cama como se aquele lugar fosse sagrado. Mas tudo ali era profano. Da pele suada aos lençóis amassados. Da garrafa vazia no chão até o gosto de fel na minha boca. Eu acordei antes dele. Estava nua. O corpo dele ainda quente do meu lado. O cheiro do nosso suor misturado grudado em mim feito culpa.

Virei devagar. Ele estava de costas. Imóvel. Como uma estátua. E mesmo assim, mesmo naquela imobilidade sóbria, ele ainda era o homem mais bonito que eu já vi. Mas não era meu. Nunca foi. A noite anterior deveria ter sido minha vitória. Meu triunfo. Meu “eu avisei” ao universo. Eu o tinha nos meus braços, dentro de mim, gemendo meu nome... Mas ele gemia o nome dela. Isadora.

Minha garganta apertou como se eu engolisse cacos de vidro. Por que eu fiz isso comigo? Ele não me tocou como alguém que desejava. Ele me usou como quem tenta apagar um incêndio com gasolina. Como se eu fosse um pano sujo na tentativa patética de limpar o nome dela da memória. E pior: eu deixei.

Me levantei em silêncio, recolhi minhas roupas do chão, vesti a camisola que deixei sobre a poltrona. Caminhei até o espelho. Meu reflexo estava... apagado. Um borrão de maquiagem vencida, olhos fundos e uma expressão de quem implora por migalhas de um amor que nunca existiu.

“Você é a única mulher que eu confio, Elena.” A voz dele ecoava na minha cabeça como uma piada cruel. A confiança dele era um troféu falso. Eu fui a muleta, o alívio, o anestésico para a abstinência que o nome dela causava. Um substituto barato. E mesmo assim, mesmo sabendo de tudo isso… eu ainda o queria. Eu o queria todo. De verdade. Sóbrio. Amando. Mas ele nunca estaria sóbrio de Isadora. Ouvi um murmúrio vindo da cama. Ele se mexeu. Virou de lado. E então, mesmo adormecido… sussurrou:

— Isa…

Foi como uma faca cravada em câmera lenta. Abaixei a cabeça. Fechei os olhos. Respirei fundo. A dor queimava, mas era uma dor conhecida. Antiga. Fiel. Eu precisava ser fria. Racional. Imparável. Se ele ainda a queria… Se ainda a via mesmo com ela longe, nos braços de outro homem… Então eu precisava tirar dela tudo o que restava. A reputação. A paz. O futuro. Porque se eu não podia ter o amor de Heitor Montenegro… Eu teria a vitória. Nem que fosse a última.

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