POV Elena
O sol tocava meu corpo como se quisesse me expulsar da cama que, por uma noite, foi minha. Mas não era. Nunca foi. Heitor estava virado para o lado, o rosto parcialmente coberto pelo braço. O cabelo bagunçado, a pele marcada pelas minhas unhas. Mas os olhos… mesmo fechados, eu sabia que não era a mim que ele via. O nome que escapou dos lábios dele no auge do prazer... ainda martelava na minha cabeça. “Isa.” Como uma faca no meu ventre.
Apertei o lençol contra meu peito e respirei fundo, tentando convencer meu corpo de que aquela dor era só ciúme. Mas não era. Era rejeição crua, a mais primitiva, a mais nojenta. Eu tinha dado tudo, corpo, manipulação, estratégias, até minha alma, por esse homem. E tudo que recebi em troca foi um delírio que nem era pra mim.
Virei o rosto para o teto e deixei a mente me levar de volta… para origem da minha ruína.
Fazia três anos. Eu estava em uma coletiva de imprensa, invisível como sempre fui. Heitor entrou com aquele olhar de predador e a aura de quem carrega o mundo nos ombros. Eu o encarei e soube. Soube que ou eu o conquistava… ou morreria tentando. Ele estava em crise com Isadora já naquela época. Célia me contou. A tensão entre eles era uma coisa que cortava o ar. E eu entrei… como consolo. Como o afago que faltava. A pausa na guerra.
Fui paciente. Delicada. Sempre ali. Nunca exigia demais. Só… presença. Pequenos toques, pequenas palavras, doses calculadas de admiração. Tornei-me essencial sem fazer barulho. E quando ele finalmente me notou, eu já tinha mapeado cada falha dele. Cada ponto fraco. Célia dizia que isso era inteligência emocional. Eu chamava de sobrevivência.
Olhei para ele novamente. Ele murmurava algo no sono. Franzi o cenho. Me aproximei devagar, quase sem respirar. A boca dele se moveu. “Me perdoa…” Me perdoa, Isa. Mordi o lábio até o gosto de sangue cortar o pensamento. Eu não era um erro. Eu era o plano. Eu fui o plano. E estava tudo indo bem… até ela voltar com aquela aura de mártir. Até o mundo achar que ela era vítima. Que ela era corajosa. Que ela era forte. Ninguém viu as fraquezas dela como eu vi. Ninguém enxergou os surtos, os gritos, os acessos de raiva. Mas eu vi. Eu gravei.
E com a ajuda de Célia… eu vou fazer o mundo ver também. Só que algo em mim, algo pequeno e escondido… queria mais do que vingança. Eu queria que ele me amasse. De verdade. Queria que, dessa vez, ele escolhesse ficar. Pelo corpo. Pela lealdade. Pelo que construímos entre os cacos. Mas a verdade era cruel: mesmo despida, mesmo por cima dele, mesmo com os olhos dele vidrados nos meus, eu ainda era invisível.
Ele se mexeu. O rosto virou pro meu lado. Por um segundo, achei que estava acordando. Mas não. Só virou pro outro lado. Como quem quer fugir do pesadelo. Me levantei sem fazer barulho. Caminhei até o banheiro e encarei o espelho. O mesmo reflexo. A mesma mulher ignorada.
Mas agora com um novo plano em mente. Porque se ele não vai me amar… então vai me temer. E se Isadora acha que venceu… ela ainda não viu o que sou capaz de fazer.
***
Heitor seguia dormindo e eu estava sentada na ponta da cama, com a camisola colada no ventre… como se a seda pudesse esconder o que crescia dentro de mim. Passei a mão na minha barriga volumosa... Quase seis meses. Seis meses escondendo o maior segredo da minha vida.
O celular vibrou discretamente no criado-mudo. Reconheci o nome antes mesmo de pegar: Dr. Benjamin. O único homem que sabia a verdade. E o único que, de alguma forma, ainda me enxergava como mais do que um acessório de luxo ou um fantasma conveniente.
— Droga… — murmurei, pegando o aparelho e indo em silêncio até o banheiro.
Fechei a porta com cuidado, mas meu coração batia alto demais. Respirei fundo antes de atender.
— Alô?
— Elena, é o Ben. Eu liguei só pra saber como estão as coisas. A última ultrassonografia me deixou preocupado… — a voz dele vinha baixa, atenta, cheia daquela gentileza que me desmontava.
— Está tudo bem. O bebê está bem. Eu estou… lidando. — disse num sussurro, olhando meu reflexo no espelho. Pálida. Exausta. Fingida.
— Você precisa descansar, Elena. Está quase entrando no sétimo mês. Essa tensão… esse ambiente com o Montenegro… isso pode afetar a criança.
— Eu sei. — fechei os olhos. — Mas eu não posso sair daqui agora.
Silêncio.
— Ainda não contou para ele, né?
— Claro que não. — minha voz saiu mais dura do que deveria. — Esse filho não é dele. Nunca vai ser. Heitor não pode saber.
— Elena…
— É sério, Ben. Se ele descobrir… vai destruir tudo que eu construí. Ele vai usar isso contra mim. Ou pior, contra o bebê. — encostei a mão sobre a barriga, sentindo o leve chute como um lembrete do que estava em jogo.
— Mas e quanto a mim? — ele disse, baixo. — Você vai me apagar da história também?
Fechei os olhos com força. Aquela culpa me mastigava por dentro.
— Eu só preciso de mais um tempo. Eu te prometo… quando tudo estiver estável, eu saio daqui. Eu conto. Eu sumo com o bebê. Só… confia em mim, Ben. Por favor.
Do outro lado da linha, ele suspirou.
— Você sempre diz isso.
— E eu sempre cumpro. Só preciso que confie mais uma vez.
Outro silêncio. Depois, um sussurro resignado.

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