POV Isadora Ferraz
O Uber parecia não andar.
A cidade estava parada, mas o meu peito era o contrário: uma explosão constante, martelando contra as costelas. Segurei o celular com força, como se isso fosse suficiente pra manter as mãos firmes. Não era.
Ele viu.
Dante viu tudo.
A foto.
A mensagem.
A verdade.
E agora... talvez ele nunca mais me olhe da mesma forma.
***
Quando cheguei no apartamento da Olívia, ela ainda não tinha voltado. O silêncio me engoliu. Entrei, larguei a bolsa, tranquei a porta, fechei todas as janelas. Chequei duas vezes se a cortina estava mesmo cobrindo tudo.
Sentei no chão, de costas pra porta, como se pudesse afastar o mundo com as costas.
"Vadias não escapam tão fácil."
As palavras de Heitor giravam como navalhas na minha mente. A foto. O tom de ameaça. A certeza de que ele mandou alguém me seguir. De que ele sabe onde estou, com quem estou, e o que faço.
Eu deveria chorar.
Mas nem isso vinha.
Só um silêncio quente. E um nó na garganta que não descia.
***
Alguém bateu na porta.
Não buzina. Não campainha.
Batidas secas. Rápidas. Intensas.
Eu congelei.
Levantei devagar, sem fazer barulho. Me aproximei da porta com o celular na mão, já digitando uma mensagem pra Olívia.
Mas então ouvi a voz.
— Isadora. Abre a porta. Sou eu.
Dante.
Meu coração disparou.
— Isa, por favor. Eu só quero conversar.
Destranquei.
Devagar.
Ele estava ali.
Respiração acelerada. Os olhos selvagens. O cabelo bagunçado como se tivesse passado as mãos neles mil vezes a caminho daqui.
— Como você soube onde eu moro?
— Eu perguntei a Olívia. Ela me passou. Disse que era urgente.
— Ela não deveria ter...
— Isa, você está com medo. Você saiu daquele bar pálida, tremendo, sozinha. Você queria que eu ficasse lá fingindo que tava tudo bem?
— Eu não queria que você visse aquilo.
— Tarde demais.
Ele entrou devagar, fechou a porta atrás de si.
— Você mentiu pra mim.
A frase veio fria, como uma bofetada que eu merecia.
— Eu omiti.
— Omite-se quando não se sabe. Você sabia. Desde o início.
— Eu tive medo, Dante.
— Medo de mim?
— Não. Medo de que, se eu contasse, você me visse como outra mulher quebrada demais pra ser tocada.
O silêncio caiu entre nós como um raio.
Ele se aproximou.
— Eu não sou seu salvador, Isadora. Não quero ser. Mas você tá brincando de sobreviver sozinha enquanto tem alguém querendo te destruir.
— Eu sei.
— E mesmo assim, você ia aguentar tudo calada?
— Eu não queria misturar isso com o trabalho. Com a chance de recomeçar. Eu tô tentando andar em linha reta com um terremoto atrás de mim.
Dante respirou fundo.
— Ele tá te perseguindo. Isso ultrapassa qualquer linha.
Assenti.
— E ele vai fazer pior, Dante. Ele me odeia por ter saído. Por ter desafiado. Ele disse que vai arruinar minha carreira. Disse que ainda carrego o nome dele.
— Mas você não carrega mais.
— Ainda carrego, legalmente.
— E emocionalmente?
Eu o encarei. Pela primeira vez, firme.
— Não. Emocionalmente, eu me libertei naquela noite em que ele me chamou de útero falido. Emocionalmente, eu o enterrei. Mas o corpo dele ainda anda por aí, e a mão dele ainda aperta a minha vida.
Dante se aproximou mais. Estava perto o suficiente pra eu sentir o cheiro da noite.
— Você vai fazer o que precisa?
— Vou.
Fiquei em silêncio.
Porque sim.
Sim, eu me imaginei.
Sim, eu queria.
Sim, o corpo gritava por algo que a alma tentava calar.
— Você me beija como se fosse se arrepender depois — ele disse, se aproximando ainda mais. — Mas olha pra mim... você parece desesperada pra repetir.
As mãos dele não tocaram. Não ainda. Mas o calor... o calor era insuportável. Ele me cercava com a presença. Com o olhar. Com a voz que escorregava pela minha pele como promessa suja.
— Você vai cruzar essa linha? — perguntei.
— Só se você puxar o risco.
E então eu puxei.
A mão foi pro pescoço da camisa dele, puxando pra perto, e ele veio. Veio com a boca, com o peito, com a raiva contida e o desejo acumulado em cada maldito segundo de tensão.
O beijo foi outra coisa.
Foi explosão.
Foi vingança contra o passado.
Foi a prova de que ainda havia sangue nas veias, ainda havia fome, ainda havia mulher aqui, sob o trauma, sob a dor, sob o sobrenome de um homem que tentou apagar minha existência.
Dante me encostou na parede da cozinha. A boca dele percorreu minha mandíbula, meu pescoço, e as mãos firmes seguravam minha cintura como se ele precisasse de mim pra manter o mundo em pé.
— Me diz pra parar — ele murmurou contra minha pele.
— Eu não sei mentir tão bem.
As mãos dele deslizaram pelas minhas costas, puxando o vestido devagar, como quem desembrulha o que mais desejou a semana inteira.
E eu deixei.
Deixei que ele me redescobrisse sem pressa, sem medo, sem culpa.
Mas antes que tudo explodisse, o toque do meu celular vibrou no chão da sala.
Dante parou. A respiração ainda quente contra meu colo.
— Atende — ele disse, o olhar sombrio.
Peguei o aparelho.
Olívia.
Respirei fundo. Ignorei a ligação.
— Você vai se arrepender? — perguntei.
— Só se você parar agora.
E eu não parei.
Porque entre tudo o que eu perdi, só havia uma coisa que ainda era minha:
O direito de querer.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”