Preferi confiar nela. E levei em conta a minha saúde mental. Então apaguei a imagem em que ela chegava na moto. E sua caminhada até a mansão, porque denunciaria o atraso.
Agora ela estava segura. E a mente de Enzo tranquila. E eu, temporariamente, sem mais problemas.
Segui a imagem dela vindo pelo corredor. E saí da minha sala, fingindo um encontro acidental.
— Bom dia, Aayush — ela sorriu.
— Bom dia, Maria Fernanda.
Foda-se! Estávamos só nos dois e ela havia pedido que eu a chamasse pelo nome, sem formalidades. Quando Maria Fernanda soubesse o papel real que ocupava naquela casa, eu até faria reverência. Por hora, ela era só a Maçãzinha.
— Espero que tenha tido um ótimo aniversário.
— Bem — ela suspirou — poderia ter sido pior.
— O senhor Enzo não se comportou? — brinquei.
— Enzo se comportou. O problema é que ele foi o único que fez isso. — ela sorriu.
— A senhorita... é importante para ele.
Maria Fernanda comprimiu os lábios:
— Você... acha?
— Eu tenho certeza.
Maria Fernanda gostava dele. E saber que era correspondida a deixaria mais feliz. E eu queria que ela ficasse alegre. Eu tinha dúvidas se algum dia Enzo seria capaz de declarar o quanto a amava... confessando que foi desde o primeiro dia que a viu.
Ninguém tinha o direito de intervir na relação e nos sentimentos que eles tinham um pelo outro. E eu me colocava no lugar do “ninguém tem o direito”.
— Davi já foi para a escola? Enzo o levou? — ela quis saber, ansiosa.
— O senhor Enzo saiu bem mais cedo do que de costume. Surgiu uma viagem de última hora e ele não teve como fugir disso. Levei pessoalmente o menino Davi até a escola.
— Será que você poderia... não contar ao Enzo que eu cheguei... atrasada? — pediu, com um sorriso tímido.
Maria Fernanda não era tão tímida. Mas parece que inteligente na forma de agir para conseguir o que queria. Mal sabia que eu tinha apagado até sua alma desde que chegou próxima da propriedade Asheton.
— Não se preocupe, Maria Fernanda. Eu não contarei.
Ela levantou os pés e elevou o corpo, me abraçando:
— Obrigada, Aayush. Você é incrível.
Sim, eu realmente era. Uma pena que não o suficiente para ela.
Ela resumiu Enzo Asheton perfeitamente.
— Sou ciente de que Enzo tem feridas do passado que ainda não foram curadas. E isso certamente justifica cada atitude dele. Não deve ter sido fácil toda a situação que ele passou com Davi... E a mãe do menino. — levantou o olhar na minha direção, pedindo mais informações, que não dei, óbvio.
Diante do meu silêncio, Maria Fernanda concluiu:
— Eu gostaria muito de entender Enzo. Mas não sei se algum dia irei conseguir.
— A vida dos irmãos Asheton é algo muito complexo, que jamais conseguiremos entender ou desvendar de fato. Se quer um conselho, não tente. O aceite como ele é. Eu aceitei. E entenda que Enzo não teve uma infância ou adolescência normal. Isso o tornou um adulto anormal, assim com o seu irmão, Zadock. — eu sorri — eles detestam quando alguém usa a palavra “irmão”, porque na cabeça deles “meio-irmão” corta um pouco dos laços de sangue que carregam. Sobre as caixinhas na cabeça do senhor Enzo... — respirei fundo — há chance de você colocar cada coisa em seu lugar. Zadock, o irmão dele... é desprovido de caixinhas, o que teoricamente seria bem mais difícil de resolver. Mas a senhora Caliana conseguiu. Ou seja, ela atingiu o impossível... botar caixinhas onde nunca teve. Então... eu senhor certeza de que você consegue.
— Mesmo que eu não consiga... ainda assim irei amá-lo.
Eu já imaginava que ela o amava. Mas ouvir aquilo de forma tão clara doeu. Eu jamais seria um empecilho para os dois. Pelo contrário, gostava de ambos e faria o possível para que fossem felizes.
Eu não conhecia muito Maria Fernanda. Mas conhecia Enzo como a palma da minha mão. E foi exatamente por isso que aceitei a proposta de Caliana de fazê-lo ter um encontro casual com alguém. Encontrar uma pessoa de forma normal, tradicional e não pagando e obrigando a assinar um contrato, como se transar fosse um de seus negócios.
No fim, mesmo com todos os mal-entendidos ao longo do plano, deu certo. E a prova viva foi a revelação de Maria Fernanda sobre os sentimentos que criou por ele. E os que eu não tinha dúvida de que ele sentia por ela.
Zadock Asheton, traído, estraçalhado e ressurgido das cinzas, havia jurado nunca mais se apaixonar, porque acreditava que sentimentos tornavam o ser humano vulnerável e fraco. No entanto o coração dele foi colado. E no momento que vi seu olhar para a filha, era nítido o quão estava feliz. Ele amava Caliana, mais do que tudo na vida. E o mesmo sentimento nutria pela filha.
Enzo Asheton também merecia o seu final feliz. O filho ele já tinha. Só faltava a mulher. E, assim como Zadock, ele soube quem era a pessoa desde que botou os olhos nela pela primeira vez. Ambos não esperaram pelo destino e foram lá e formalizaram o compromisso para não correr o risco de perdê-las.
Parecia e deveria ser algo repugnante a forma como os irmãos Asheton tratavam suas mulheres. Mas para qualquer um que conhecesse a vida deles, entenderia que aquilo era um ato de amor. Insano, mas amor. E assim como Zadock, eu sabia que Enzo incendiaria o mundo por Maria Fernanda.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá é a mais nova obsessão do CEO
Porque não desbloqueiam mais capítulos?...
Excelente leitura...