— Já tentei me demitir, mas Enzo não aceita.
Shirley levantou os olhos na minha direção e sorriu com ironia:
— Assim que eu me casar com ele, irei te demitir.
Respirei fundo:
— Contanto que eu receba meus direitos trabalhistas, tudo bem.
— Antes de partir, Enzo me chamou em seu escritório. — ela sorriu, provocante.
— Quer que eu pergunte o que ele queria? — eu ri — Pois eu pouco me interesso em saber.
Eu sabia que, antes de partir, Enzo foi se despedir de mim. E eu estava muito arrependida de não ter aberto a porta para ele, nem que fosse para brigar olhando dentro de seus olhos. E ao menos lhe dar... um beijo.
— Eu vou ser sincera, me surpreendi pelo quanto ele confia em mim. Porque se não confiasse, não pediria que eu ficasse de olho em você. — falou e voltou a observar a lixa que esfregava com força contra a unha.
A encarei, confusa. Como assim Enzo pediu que Shirley ficasse de olho em mim? Por acaso ele achava que eu poderia fazer algum mal a Davi? Ou... pegar alguma coisa da casa que não fosse minha?
“Decepção” foi a palavra que me veio à mente. Como eu queria dar um voto de confiança para Enzo e acreditar que ele era o meu príncipe e que me beijaria no caixão de vidro e me acordaria para o “felizes para sempre”. Mas estava cada vez mais difícil.
A babá malvada não dava folga. Pelo visto ficar na frente do espelho e perguntar se era a mais bela era a menor de suas maldades. Acho que Shirley perguntava para a lixa e não para o espelho: “Alguém tem uma unha mais lixada do que a minha?”
Shirley queria me ferir. E tudo com relação a Enzo e suas desconfianças contra a minha pessoa, feria. Lembrei-me de quando ele achava que eu tinha me infiltrado na vida dele para dopá-lo. Afinal, com qual objetivo eu faria isso? O que passou na cabeça de Enzo?
Shirley estava lixando as unhas, pouco preocupada com Davi. Mas ele era uma criança. Uma criança carente que demandava atenção o tempo todo.
Fui em direção ao quarto do meu garotinho. Se Shirley fosse contar para Enzo, eu pouco me importava.
Abri a porta do quarto e não encontrei Davi. Mas a cama estava desarrumada e havia um desenho na mesinha de estudos. Mordi o lábio, tentando conter as lágrimas ao ver a imagem de mim vestida de noiva e ele ao meu lado.
Minha imagem como pessoa era bem maior que a dele. Ou seja, Davi ainda se via como uma criança e entendia que eu era adulta.
Chamei pelo nome dele, mas não obtive resposta. O procurei no banheiro, mas também não estava. Comecei a procurar de cômodo em cômodo. Mas Davi não estava em nenhum.
Por último, fui ao quarto de Enzo. Abri a porta e tudo estava organizado. O cheiro dele ainda pairava no ar e tive vontade de chorar. Quando ouvi o som de água vindo do banheiro, fui até lá. Certamente era Davi. Mas estranhei ele ir ao banheiro do pai.
Fiquei atordoada. Rezei para que ele acordasse, mas aquilo não aconteceu.
Subi um degrau e ela se afastou, ainda com Davi. Pus a mão no bolso, mas lembrei que o celular tinha ficado no quarto.
Foi quando senti as mãos nas minhas costas, com força, me arremessarem. Me desequilibrei e escorreguei. Tentei me agarrar ao corrimão, mas não consegui.
Então fui rolando, degrau por degrau, tentando proteger a minha barriga. Quando cheguei no chão, meu corpo doía. Mas menos do que imaginei. Tentei levantar. Eu precisava ajudar Davi. Mas minhas pernas se recusaram a obedecer.
Senti algo quente no meio das minhas pernas. E então vi o sangue manchando o tecido da calça.
Abri a boca para gritar, mas minhas cordas vocais pareciam não emitir mais nenhum som.
Do alto da escada, Shirley segurava Davi ensanguentado em seus braços. No chão, eu sangrava... não só o corpo, mas também o coração e a alma. Eu sabia que tinha perdido o meu bebê.
As lágrimas foram brotando dos meus olhos, espessas, doloridas. Minha barriga se contraiu numa cólica forte.
Branca de Neve estava definitivamente prestes a ir para o caixão de vidro. E eu rezei fervorosamente para que fosse adormecida. Eu não queria sentir aquela dor. A dor de perder o meu filho. A dor de ver Davi morrer e eu não ter feito nada para impedir.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá é a mais nova obsessão do CEO
Porque não desbloqueiam mais capítulos?...
Excelente leitura...