Silêncio.
Um silêncio pesado, denso, que me obriga a reler o nome duas vezes para ter certeza de que entendi direito.
— Ryan Mitchell — repito devagar. — O ex-padrasto dela.
Deixo o papel sobre a mesa, tentando processar.
— Então ele contratou um seguro de vida para a mulher doente… e colocou o próprio filho como beneficiário?
— Exatamente. E não foi um valor pequeno, Lucas. Estamos falando de duzentos mil dólares.
Duzentos mil.
O número ecoa na minha cabeça enquanto as peças começam a se encaixar, uma a uma.
— A Ivy me disse que ele arrumou um emprego em outro estado pouco depois do diagnóstico da mãe — murmuro, mais para mim do que para Owen. — Disse que ele simplesmente… sumiu. Que abandonou a Olivia quando ela mais precisava.
— Ele não sumiu, Lucas — diz, apoiando os cotovelos na mesa. — Ele se afastou para não ter trabalho. Fez o “investimento” e ficou esperando o retorno, sem precisar sujar as mãos.
A raiva volta a subir, queimando no meu peito.
— Filho da puta.
— E tem mais — ele continua, virando outra página. — Assim que a Olivia faleceu, o seguro foi acionado. Mas, como o Liam é menor de idade, o dinheiro foi para o tutor legal dele.
— Ryan.
— Exatamente. O pai.
Fecho os olhos por um segundo, respirando fundo para não explodir.
— Então ele voltou, pegou o garoto e desapareceu com o dinheiro.
— Foi o que meu investigador concluiu. Ryan esperou o momento certo, voltou para Ohio, levou o Liam e sumiu antes que alguém pudesse contestar a tutela.
— Ele sabia que a Ivy poderia tentar algo e quis evitar qualquer risco — murmuro.
Owen hesita.
— Na verdade, ela nem teria como contestar. Legalmente, Ryan é o pai de Liam. Ele tinha todo o direito de levar o menino.
— Mesmo sabendo que era só pelo dinheiro? — pergunto, sentindo a descrença se misturar com ódio.
— A lei não funciona assim, Lucas. Não importa a motivação. Se ele é o pai biológico e não há provas de abuso ou negligência, ele pode fazer o que quiser com a criança.
Aperto os punhos, sentindo a frustração de saber que algo está errado e não poder fazer nada para impedir.
— Onde ele está agora?
— Ainda estamos rastreando. Meu investigador encontrou alguns rastros — ele explica. — Uma conta bancária aberta em nome dele em Nevada, transações de cartão de crédito em algumas cidades do meio-oeste… mas nada conclusivo ainda.
— Nevada — murmuro, deixando o nome pesar na boca. — Longe de Ohio.
— Longe de qualquer lugar onde a Ivy pudesse encontrá-lo, Lucas.
— Mas… ela disse que sabe que o senhor está aqui.
— Diga que eu já fui embora — repito, com a voz mais dura. — E se ela ligar de novo, a resposta será a mesma.
A mulher engole em seco, assente rápido e sai quase correndo da sala, como se quisesse fugir da tensão que ficou para trás.
— As notícias realmente correm rápido — Owen comenta, me encarando com uma sobrancelha arqueada. — Não faz nem quinze minutos que você chegou.
— Minha mãe tem espiões em cada canto dessa empresa — murmuro, passando a mão pelo rosto. — Provavelmente já sabe até a cor da gravata que estou usando.
— Uma hora você vai ter que parar de fugir dela — ele diz, voltando a atenção para os papéis.
— Hoje não — respondo, exausto. — Não depois dos dias de paz que tive com a Ivy e o Oliver. Já basta lidar com Ryan e Blair. Não preciso da minha mãe enchendo ainda mais a minha cabeça.
Owen solta uma risada baixa e balança a cabeça.
— Justo. — murmura, ficando sério de novo. — E quanto à Blair? O que fazemos com essa outra dor de cabeça?
— Continue montando a defesa. Reúna tudo o que puder sobre o caso dela com o Jasper… ou com qualquer outro. Se ela quer jogar sujo, vamos mostrar a ela o que é sujo de verdade.
— Agora sim — ele responde, abrindo um sorriso de canto, satisfeito. — Esse é o CEO implacável que eu conheço. Achei que estar apaixonado tinha matado esse seu lado cruel.
— Eu estava tentando ser civilizado — murmuro, levantando da cadeira e ajeitando o paletó. — Mas Blair não quer civilidade. Ela quer guerra.
— Então vamos dar uma guerra para ela.

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