Um pouco mais de um mês se passou desde o evento beneficente, que, graças a Deus, não trouxe maiores complicações.
Cinco semanas de visitas à Filadélfia. De ver Liam se soltar um pouco mais a cada encontro. De promessas de que, em breve, estaríamos juntos.
E hoje… finalmente é a última visita. A guarda agora é minha.
Endireito um livro na prateleira do quarto dele pela segunda vez, mais para ocupar a mente do que por estar realmente desalinhado. Tudo já está pronto, esperando por ele.
As paredes azuis cuidadosamente escolhidas, alguns brinquedos organizados sobre a cama, coberta por um edredom de dinossauros que Oliver escolheu… Tudo perfeito.
— Já está lindo, amor — Lucas diz, entrando no quarto.
— Eu sei — respondo, observando o ambiente mais uma vez. — Só espero que ele goste.
— Liam vai adorar — ele afirma, se aproximando e passando o braço pela minha cintura. — Porque você fez tudo com carinho.
Sorrio e apoio a cabeça no ombro dele.
— Eu só quero que ele se sinta em casa.
— E vai se sentir — diz, beijando meus cabelos. — Porque você está aqui. E isso é tudo o que ele precisa.
Nossa conversa é interrompida por passos rápidos no corredor.
Me viro e vejo Oliver parado na porta, segurando um foguete nas mãos.
— Oi, astronauta — digo, sorrindo. — Entra!
Ele hesita, mas entra devagar, percorrendo os olhos em cada canto do quarto.
— Ficou bonito — murmura, quase sem entusiasmo.
— Ficou mesmo — Lucas concorda, se abaixando ao lado dele. — Principalmente o edredom que você escolheu.
Oliver não responde, só continua olhando ao redor, quieto demais.
— Filho — Lucas chama, colocando a mão no ombro dele. — Está tudo bem?
— Tá — ele murmura, sem encarar o pai.
— Tem certeza? — insisto, acariciando os cabelos dele. — Você parece… triste.
Ele morde o lábio, hesita por um instante e, finalmente, me olha.
— Agora que o Liam está vindo… você vai gostar mais dele do que de mim?
— O quê? — sussurro, sentindo meu peito apertar. — Claro que não, Oliver. Por que você acha isso?
— Porque ele é seu irmão — diz, com a voz trêmula. — E eu… sou só o filho do papai.
Meu coração se parte, e engulo em seco.
— Oliver, me escuta — digo, me abaixando na frente dele. — Você não é “só” nada. Você é o meu astronauta. O menino que me ensinou sobre planetas, que divide pipoca comigo, que me faz rir todos os dias.
— Mas o Liam…
— O Liam é meu irmão — explico, num tom suave. — E eu o amo muito. Mas isso não muda o quanto eu te amo, meu amorzinho. Uma coisa não tira o lugar da outra.
Ele pisca, tentando entender.
— Sabe o que aprendi nesses meses com você? — continuo, enxugando as lágrimas que escorrem pelo rosto dele. — Que o coração da gente não tem limite. Ele cresce, se expande e sempre cabe mais amor.
— Mesmo? — ele pergunta, com a voz pequena.
— Mesmo — respondo, puxando-o para um abraço apertado. — Tem espaço para você, para o Liam, para o seu papai… para todo mundo. E nada vai mudar o quanto você é especial para mim. Nada. Entendeu?
Ele me abraça com força, envolvendo meu pescoço.
— Eu te amo, Ivy — murmura contra meu ombro.
— Mas ele guardou isso sozinho… Eu devia ter percebido.
— Ele estava com medo de perder espaço — responde, suave. — E você acabou de mostrar que isso nunca vai acontecer.
Fico em silêncio por alguns segundos, tentando aceitar que fiz o suficiente.
— Precisamos ir — ele diz, olhando para o relógio. — Ou não chegaremos à Filadélfia antes do almoço.
— Vamos.
Descemos juntos, e encontro a Sra. Mallory na sala, segurando uma sacola.
— Srta. Collins — ela chama, estendendo-a para mim. — Preparamos alguns sanduíches e frutas para a viagem. E um bolo de chocolate para o pequeno Liam. Ouvi dizer que ele adora.
— Obrigada pelo cuidado, Sra. Mallory — digo, emocionada, abraçando-a rapidamente.
— Não precisa agradecer, menina — responde, sorrindo. — Agora vá buscar esse garotinho e traga-o logo para casa.
Oliver surge correndo, com o casaco meio torto e o foguete ainda na mão.
— Tô pronto! — exclama, dando um pulinho.
Seguro a mão dele enquanto Lucas pega as chaves.
— Vamos — ele diz, abrindo a porta.
Seguimos até a garagem. Prendo Oliver na cadeirinha, confiro o cinto mais uma vez e, então, me sento no banco do passageiro.
Quando Lucas liga o carro, não consigo evitar olhar para a casa pela janela.
Nossa casa.
A casa onde, em breve, Liam finalmente estará.

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