“Ivy collins”
Meus olhos se fixam nas ruas de Manhattan que passam pela janela, mas meus pensamentos estão longe daqui.
Sinclair. Só de pensar nesse sobrenome, meu estômago embrulha.
Pensar que estamos indo jantar na casa de um deles esta noite, com outros dois que pesam ainda mais sentados em algum lugar daquela mesa, intensifica meu nervosismo.
— Ivy — a voz de Lucas me traz de volta.
Viro a cabeça e encontro seu olhar fixo na estrada, com uma das mãos sobre a minha coxa.
— Estou bem — digo, antes que ele pergunte.
— Não perguntei nada.
— Mas ia perguntar, certo?
Ele me olha rapidamente, sorrindo de lado.
— Meu tio é diferente — diz, tranquilo.
— Diferente dos seus pais ou diferente, mas ainda assim vai me julgar?
— Ele não tem motivos para te julgar — rebate, apertando levemente minha pele.
— Tenho dezenove anos, Lucas. Ele pode não julgar, mas vai estranhar. Como todo mundo.
— Ele não vai se importar com isso. Te garanto que vai gostar de você em cinco minutos — diz, num tom tranquilo. — O tio Joe é legal, você vai ver.
Assinto, tentando demonstrar mais tranquilidade do que realmente sinto.
Legal… será que os Sinclair conhecem essa palavra?
Porque, pelo que vi até agora, o vocabulário dessa família é composto basicamente de exigências e aparências.
— Papai, vai ter bolo, né? — Oliver pergunta, interrompendo meus pensamentos.
— A gente descobre quando chegar, filho.
— E quanto tempo falta pra gente chegar?
— Pouco.
— Quanto é pouco?
— Quando chegar lá, a gente descobre — respondo, me virando no banco. — Combinado?
Ele considera isso por um segundo, como se estivesse avaliando a qualidade da resposta.
— Tá bom — decide, aparentemente satisfeito.
— Ivy — Liam me chama antes que eu possa virar. — O bolo vai ser de chocolate?
— Não sei.
— Espero que sim — ele murmura, passando a língua nos lábios exageradamente. — Eu amo bolo de chocolate!
— EU TAMBÉM! — Oliver concorda, gritando.
Olho para os dois e é impossível não sorrir.
Como é bom ser criança… eu aqui, preocupada com o andamento da noite, enquanto eles só querem saber qual será o sabor do bolo.
Respiro fundo e encosto a mão sobre a mão de Lucas, que imediatamente entrelaça nossos dedos.
Alguns minutos depois, paramos em frente a uma casa de tijolos marrons, em um quarteirão tranquilo do Upper East Side, com uma fachada discreta e bem conservada.
É menor do que imaginei, confesso. Não que seja modesta, está bem longe disso, ela só não tem aquela imponência fria que sempre associo à família de Lucas.
Parece, estranhamente… um lar.
Lucas estaciona e, antes mesmo de desligar o motor, Oliver já está tentando abrir a porta.
— Essa é a Natalie — Joe apresenta, sorrindo para ela. — O amor da minha vida e um desastre na cozinha.
— Não sou um desastre. Só não sou… muito boa nisso — ela rebate, revirando os olhos. — Prazer em conhecer vocês.
— O prazer é nosso — Lucas responde, trocando um olhar divertido com o tio.
Natalie cumprimenta rapidamente os meninos e então se vira para mim.
— Posso te roubar um minuto? — pergunta, sorrindo sem jeito. — Prometo que não é para cozinhar. Só preciso de uma segunda opinião sobre o molho.
Olho para Lucas, que faz um gesto sutil com a cabeça, basicamente dizendo: “vai, está tudo bem”.
Sigo Natalie para a cozinha enquanto os homens ficam na sala com as crianças. Quando chegamos, ela mergulha uma colher em uma panela pequena e se vira para mim.
— Experimenta, por favor.
Faço o que ela pede, provando o molho enquanto ela me encara com expectativa.
— Está ótimo — respondo, sincera.
— Você não está dizendo isso só para ser educada?
— Não — digo, rindo. — Está mesmo bom.
Natalie solta um suspiro dramático, apoiando a mão no peito. O gesto simples me faz relaxar imediatamente.
Talvez Lucas tenha razão. Talvez o tio dele realmente seja um Sinclair diferente dos demais.
Ela desliga o fogo e me encara.
— Então… você é a famosa Ivy — diz, levantando uma sobrancelha. — É um prazer conhecer a segunda mulher que recentemente agitou a família Sinclair.
— Segunda? — pergunto, franzindo a testa.
— Sim. A primeira sou eu.

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