Caminho até o carro sem olhar para trás. Só quando entro e fecho a porta volto a falar com Owen.
— Sobre o que, Owen?
— Sobre a Lily.
— Chego em vinte minutos — respondo, ligando o motor. — Estou a caminho.
— Lucas, é importante.
— E vai continuar sendo importante daqui a alguns minutos. Nos vemos daqui a pouco.
Desligo antes que ele resolva me contar mesmo assim e saio da casa dos meus pais sem olhar para o retrovisor.
O trajeto até a empresa é silencioso, ao contrário da minha mente. Dirijo no automático enquanto meus pensamentos continuam repassando cada segundo da conversa que tive com meus pais.
Espero, sinceramente, que surta algum efeito.
Quando estaciono na empresa, são quase trinta minutos depois do horário em que normalmente chego. Os corredores estão bem mais movimentados que o habitual.
Noto os olhares em mim. Afinal, a pessoa conhecida por exigir a mesma pontualidade que pratica chegar atrasada é o tipo de coisa que gera comentário silencioso.
Entro na minha sala e, em menos de dois minutos, minha assistente b**e à porta e entra. Ela me entrega um café, passa minha agenda de hoje e, graças ao meu humor, sai poucos minutos depois.
A porta permanece fechada por menos de cinco minutos até Owen finalmente aparecer.
— Dez minutos — murmuro, olhando o relógio. — Bateu seu recorde dessa vez.
— Só porque você me deixou no telefone — ele responde, se sentando à minha frente. — O que, aliás, é a segunda coisa mais estranha que aconteceu hoje.
— Qual é a primeira?
— Lucas Sinclair, o senhor da pontualidade, chegando atrasado — diz, abrindo as mãos. — Pelo amor de Deus, que milagre foi esse?
— Precisei resolver uma coisa antes de vir — respondo, me recostando na cadeira. — Fale logo sobre a Lily.
Owen hesita por um segundo, claramente curioso, mas não insiste.
— O advogado dela largou o caso — ele diz, se endireitando na cadeira. — Oficialmente, por conflito de agenda. Mas a fonte que me passou essa informação disse que ele saiu porque parou de receber os honorários. Então…
— Em breve teremos o nome que queremos — digo antes que ele complete.
— Exatamente.
Assinto, colocando a xícara na mesa.
Owen me analisa por um segundo irritante, como se esperasse uma reação melhor de mim.
— Isso é tudo? — ele pergunta, inclinando a cabeça.
— O que mais deveria ser?
— Não sei. Talvez algum sinal de que você está vivo — diz, irônico. — Você chegou atrasado, o que por si só já é um evento histórico. E agora recebe uma notícia que esperamos há semanas e reage como se eu tivesse te contado a previsão do tempo. Que bicho te mordeu hoje?
— Não é minha mãe que está na minha cabeça. É a lembrança que ela trouxe, a que sempre evito pensar.
— Que é a mesma coisa — rebate, suspirando. — Você está pensando como se isso fosse uma equação. Como se a diferença de idade, em algum momento, tornasse a relação injusta para ela.
— Não estou inventando isso.
— Está, quando ignora metade da história — ele diz, sério. — Você está olhando para o que a Ivy ainda não tem. Não para o que ela escolheu, sabendo de tudo.
Fico em silêncio enquanto ele me observa por mais alguns segundos, como se esperasse alguma reação que não vem.
— Você não é o tipo de homem que prende ninguém. E a Ivy definitivamente não é o tipo de mulher que ficaria se não quisesse — continua, se levantando. — Além disso, você está esquecendo uma coisa.
— O quê?
— A Ivy não é a única pessoa nessa história que teve a vida virada de cabeça para baixo. Você também teve.
Com isso, ele sai, deixando a sala em silêncio. O tipo de silêncio que faz pensamentos gritarem.
Pego o celular, abro a conversa com Ivy e fico olhando para a tela por alguns segundos. Digito e apago umas duas vezes.
Por fim, vou direto ao assunto:
“Precisamos conversar quando eu chegar em casa.”
Envio antes de mudar de ideia.

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