O silêncio que se instala não é desconfortável, mas pesa de um jeito diferente. Lucas me observa, esperando, e percebo que ele não vai preencher esse espaço por mim.
— Não entendo o que está tentando me dizer.
— Estou tentando te perguntar sobre você — diz, pacientemente. — Não sobre mim, nem sobre os meninos. Sobre você.
Abro a boca e fecho, porque a resposta honesta é que faz tempo que não penso nisso.
Faz tempo que o presente ocupa tanto espaço que o que vem depois ficou em segundo plano, depois em terceiro, até sumir completamente.
— Quando você foi aceita em Stanford — ele continua, devagar —, o que ia estudar?
A pergunta se instala de um jeito diferente das outras. Não esperava por esse caminho, e talvez seja exatamente por isso que a resposta sai sem filtro.
— Medicina — digo, baixinho. — Queria ser pediatra.
Lucas não reage com surpresa, apenas assente, como se a resposta confirmasse algo que ele já suspeitava.
— E depois de tudo o que aconteceu, deixei de pensar nisso — continuo, antes que ele precise perguntar. — Não fazia sentido alimentar um plano que tinha desmoronado. Era mais fácil focar no que estava à minha frente. Em tudo o que eu precisava… resolver.
— Eu sei — ele diz. — E entendo por quê. Mas isso não significa que o sonho acabou, Ivy. Significa que foi interrompido.
Desvio o olhar para as mãos no colo, porque olhar diretamente para ele enquanto fala assim é difícil de um jeito que não sei bem explicar.
— Você está dizendo isso porque sua mãe te fez pensar que estou desperdiçando algo estando com você — murmuro, finalmente voltando a encará-lo.
— Estou dizendo porque é verdade — ele responde, direto. — E, porque minha mãe, pela primeira e provavelmente única vez, fez a pergunta certa, mesmo pelos motivos errados.
Fico em silêncio, processando a conversa. Lucas estende a mão e entrelaça nossos dedos, acariciando minha pele.
— Não quero que você acorde daqui a dez anos e descubra que deixou de viver a sua vida porque estava vivendo a minha — continua, devagar, como se cada palavra fosse escolhida com cuidado. — Você tem dezenove anos. Tem um sonho que ainda não foi embora, só ficou quieto. E agora tem alguém que pode te ajudar a tirá-lo do canto onde você o escondeu.
— Lucas, eu…
— Antes que volte a pensar nisso, não estou te mandando embora — ele diz, antes que eu termine. — Estou fazendo o oposto. Estou dizendo que você não precisa escolher entre mim e o que quer ser.
Concordo com a cabeça, tentando organizar tudo o que estou sentindo, que é muita coisa ao mesmo tempo. Alívio, gratidão, algo que aperta o peito de um jeito que não é dor, mas se parece com ela.
— E se eu não conseguir ser? — pergunto, mais baixo do que pretendia. — Ou melhor, e se eu tentar e não for suficiente?
— Então você tenta de novo — ele responde, como se fosse simples. — Mas não me peça para aceitar que você nem vai tentar.
Fico olhando para nossos dedos entrelaçados por um segundo, tentando entender por que essa conversa está tomando um rumo que não esperava.
O medo passou, claro. Agora deu lugar à sensação de abrir uma gaveta que você trancou há tanto tempo que esqueceu o que tinha dentro… e descobrir que ainda está lá, intacto, esperando.
Pediatria. A palavra passa pela minha cabeça com uma familiaridade que me surpreende. Por quanto tempo fingi que esqueci?
— Por que pediatria? — ele pergunta, como se lesse meus pensamentos.
Olho para ele sem falar nada, porque a resposta existe há anos, mas faz tempo que não preciso colocá-la em palavras.
— Sempre fui boa com crianças — começo, meio sem jeito. — Desde pequena, quando minha mãe ainda estava bem, eu ficava com os filhos dos vizinhos às vezes. Sempre ajudei a cuidar do Liam… Não sei explicar, mas sempre foi natural.
Lucas me ouve sem interromper, com aquela paciência infinita que parece existir só para mim.

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