“Lucas Sinclair”
O jantar não acontece.
Não porque alguém decidiu cancelar, mas porque, depois que dei a notícia, fiquei parado no corredor por tempo suficiente para Ivy entender que o restaurante ia ter que esperar.
Ela não perguntou nada na frente das crianças. Só olhou para mim, leu o que precisava ler e foi convencer os meninos a pedirem comida por delivery.
Agora, Ivy e os meninos estão na sala com a pizza escolhida, enquanto eu estou no escritório, com Owen no telefone.
— Descobriu como aconteceu? — pergunto, direto.
— Foi uma briga com outra detenta, segundo o que me passaram. Aparentemente, começou por algo pequeno e escalou rápido — ele responde. — A versão oficial é acidente.
— E a versão não oficial?
Owen demora um momento antes de responder, o que já é resposta suficiente.
— Ainda não tenho isso confirmado.
Esfrego a mão no rosto, me recostando na cadeira.
Ontem, Lily estava viva. Ontem eu estava sentado do outro lado daquela mesa, vendo a armadura dela rachar. Ela ia ceder, vi nos olhos dela. Mais um dia, talvez dois, e ela teria assinado.
Agora não existe mais Lily para assinar nada.
— Ela tinha decidido alguma coisa antes de… — começo.
— Não. Nenhum contato com o advogado que indicamos, nenhum movimento com o promotor. Ela saiu da nossa reunião e não fez nada.
— Então não temos nada nas mãos.
— Por enquanto, não.
Levanto da cadeira e vou até a janela, olhando para as luzes lá fora sem realmente enxergar.
A intenção nunca foi ajudar Lily. A intenção era fazê-la escolher o caminho mais curto para chegar até Blair com provas concretas, e alguém claramente sabia que faríamos isso na primeira oportunidade.
— Owen, isso está…
— Bem estranho — ele diz, antes que eu termine. — O timing é conveniente demais.
— Conveniente demais — repito. — Uma briga aleatória no dia seguinte à nossa visita.
— Pode ser coincidência.
— Pode. Mas você acredita nisso?
— Não — ele admite, soltando um longo suspiro.
Também não acredito.
Coincidências não costumam apagar testemunhas no momento exato em que deixam de ser úteis.
Solto o ar devagar, tentando organizar o que sobrou depois que o plano original desmoronou.
Eu deveria ter previsto que alguém avisaria sobre a nossa visita a Lily. Alguém sempre avisa alguém, e deixei isso passar.
— Preciso que você levante tudo sobre o que aconteceu lá dentro — digo, voltando para a mesa. — Quem era a detenta, como começou, quem estava por perto. Quero cada detalhe.
— Isso vai levar alguns dias.
— Então, recomendo que comece agora.
— Estava — confirmo, respirando fundo. — Com o depoimento dela, a Blair podia ser responsabilizada por tudo. Sem a Lily…
Não termino a frase. Não preciso.
Ivy se aproxima, se acomodando ao meu lado e entrelaçando nossos dedos.
— Você acha que foi acidente?
— Acho bem difícil que tenha sido — respondo, esfregando a mão no rosto. — Tudo foi conveniente demais para ser coincidência.
— Então alguém fez isso — ela diz, baixo, mais afirmando do que perguntando.
— Ou deixou acontecer. O que, na prática, dá no mesmo.
Ivy assente, sem insistir, sem perguntar se estou bem de um jeito que me obrigaria a mentir.
É uma das coisas que mais aprendi sobre ela nesses meses: ela sabe a diferença entre apoiar e pressionar. E escolhe sempre o primeiro.
Ela apoia a cabeça no meu ombro e ficamos em silêncio, observando os meninos.
Liam agora está explicando alguma regra que só existe na cabeça dele, enquanto Oliver discorda com a confiança de quem tem certeza absoluta de que está certo.
Tudo absolutamente normal.
Simples.
Intocável.
Por enquanto.

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