"Blair Knight"
O hotel é discreto o suficiente para que ninguém que importa nos veja entrar, mas confortável o suficiente para que Jasper não reclame.
Nunca reclama, na verdade. Essa é uma das poucas coisas que aprecio nele.
Estou deitada de costas, olhando para o teto, quando o celular vibra pela terceira vez na mesa de cabeceira. Ignorei as duas primeiras. Na terceira, viro a cabeça e leio o nome na tela.
Pai.
Sento na cama imediatamente.
— Preciso atender — digo, pegando o telefone.
Jasper levanta os olhos do celular, sem pressa.
— Vou tomar banho — responde, se levantando.
Atendo antes que toque uma quarta vez.
— Pai.
— Meu escritório. Uma hora.
Ele desliga antes que eu responda.
Fico olhando para a tela por um segundo, sentindo algo que raramente sinto e não gosto de nomear.
Jasper aparece na porta do banheiro, a toalha na cintura, e me olha.
— Algum problema?
— Preciso ir.
Começo a me vestir sem olhar para ele. Pego o vestido do chão, o cinto da cadeira, e quando estou me arrumando na frente do espelho, sinto o olhar dele nas minhas costas.
— Blair.
— Eu realmente preciso ir.
— Não perguntei se precisa ir. Perguntei se tem algum problema.
Paro por um segundo, com os olhos no reflexo. Jasper me olha do outro lado, com aquela expressão direta que não finge nem consola.
— Talvez eu tenha feito algo que não deveria — digo, voltando a ajustar o cinto.
Ele não responde imediatamente.
— Que tipo de coisa?
— O tipo que parecia simples na época.
Pego a bolsa, verifico o celular uma última vez e me viro para ele.
— Te ligo depois.
Saio antes que ele decida perguntar mais alguma coisa.
⋆ ˚。⋆୨୧˚
A casa do meu pai tem doze cômodos e eu sempre odiei cada um deles.
— Não sabia — ele repete, com uma calma que corta mais do que o tapa. — Descobri esta manhã, quando meu advogado me ligou perguntando por que minha conta estava sendo investigada por uma transação de quatorze mil dólares para uma detenta.
— Eu precisava que…
— Não me interessa o que você precisava — ele interrompe, se inclinando sobre a mesa. — Me interessa que você usou minha conta. Minha conta, Blair. Como se eu fosse idiota o suficiente para não perceber, ou conivente o suficiente para não me importar.
— Não tinha como ligar de volta a você se fosse investigado, a empresa estava…
— Estava no meu nome — ele diz, levantando a voz pela primeira vez. — Qualquer rastro leva até mim. Você entende o que fez?
— Lucas destruiu minha reputação — respondo, sentindo a raiva antiga subindo junto com a voz. — Saiu por cima enquanto eu ficava com as consequências, enquanto todo mundo me olhava como se eu fosse a vilã da história. Não podia simplesmente…
O segundo tapa é mais forte que o primeiro.
Desta vez, preciso segurar na beira da cadeira ao lado.
— Você é uma criança — ele diz, apontando o dedo para mim. — Uma criança mimada que achou que podia brincar com coisa de adulto e sair ilesa.
Não respondo. A bochecha lateja, mas não vou dar a ele a satisfação de ver que doeu.
Alfred se endireita, ajeitando o paletó com aquela compostura que nunca abandona completamente, nem nas piores situações. É a coisa mais irritante nele.
— Agora sou eu quem vai ter que lidar com essa bagunça que você criou — murmura, quase para si mesmo, voltando para a cadeira atrás da mesa.
— O que você vai fazer? — pergunto, por fim.
Ele abre uma gaveta, pega algo que não consigo ver daqui, e me olha por um longo segundo antes de responder.
— Vou limpar a merda que você fez — diz, num tom que me dá arrepios. — Como adultos realmente fazem.

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