Blake não responde à provocação. Fecha a porta com calma, como se o silêncio dele fosse mais eficiente do que qualquer resposta.
— O andar de cima está limpo. Seu quarto também — informa, direto, como se estivesse lendo um relatório.
— Que reconfortante — resmungo, revirando os olhos.
No entanto, mal passo por ele e toco a maçaneta do meu quarto quando a voz dele me faz parar. Fecho os olhos por um segundo, puxando o ar com força, e me viro devagar.
— Srta. Sinclair — diz, naquele tom controlado e robótico que estou começando a odiar. — Precisamos definir como as coisas vão funcionar a partir de agora.
— Não precisamos definir nada agora — rebato, cruzando os braços. — Eu só preciso de um banho.
— Com todo respeito, senhorita… você precisa de muito mais do que isso.
Aperto a mandíbula, sentindo a irritação surgir rápido demais.
— Olha, Sr. Chefe da Segurança — começo, respirando fundo para não perder o controle —, eu sei que você está seguindo ordens e fazendo o seu trabalho, mas já tive um homem decidindo por mim hoje. Sim, fui sequestrada, mas não estou incapaz de…
— Tomar decisões? — ele completa, sem elevar a voz.
O corte é tão preciso que fico em silêncio por um segundo. Não porque ele esteja certo, mas porque acertou exatamente onde eu estava indo.
O protocolo em pessoa inclina levemente a cabeça, me observando com aquela atenção desconfortável, analisando cada reação minha em tempo real.
— Ninguém está dizendo que você está incapaz, senhorita — continua, no mesmo tom controlado. — Estou dizendo que, neste momento, suas decisões estão sendo influenciadas por estresse, privação de sono e exposição recente a uma ameaça direta.
— Que discurso bonito — rebato, seca. — Você ensaia isso no espelho ou já vem pronto com o terno?
Blake ignora a provocação, claro. Nem um músculo se move.
— Quatro homens vão se revezar em turnos — ele diz, como se estivesse descrevendo a logística de um evento qualquer. — Nenhuma movimentação sem aviso prévio. Entradas e saídas serão controladas. Contato externo, limitado.
Solto uma risada baixa, sem humor, sentindo o peso das ordens se instalar de verdade.
— Impressionante.
— Algum problema?
— Vários — respondo, soltando um suspiro. — Mas o principal é você achar que pode chegar na minha vida e começar a dar ordens como se eu fosse uma criança.
— Não estou tratando você como uma criança. Estou te tratando como minha responsabilidade — ele responde, no mesmo tom estável. — E eu não falho com isso.
A resposta vem tão direta que fico sem reação por um segundo.
O silêncio se instala entre nós, denso.
— Vou tomar um banho — digo, por fim, abrindo a porta. — Quando eu estiver com paciência, ouço o restante do seu protocolo, ok?
Entro no quarto, mas antes que eu consiga fechar a porta, ele me impede. Aperto os dedos sobre a maçaneta, decidindo se esmago a mão dele contra a madeira ou se escuto o que ele ainda tem a dizer.
— O que é agora? — pergunto, olhando-o pela fresta.
— Mantenha a fechadura destrancada, Srta. Sinclair.
— Você está de brincadeira — digo, abrindo a porta novamente. — Também quer entrar no banheiro e segurar minha toalha enquanto tomo banho? Porque, aparentemente, portas não significam mais nada na minha vida.
O robô de terno não reage.
— Não, senhorita — responde, seco. — Manter a porta destrancada já é o suficiente.
“Você está em casa agora, meu amor.”
Aperto os olhos com força, como se isso fosse suficiente para expulsar a lembrança. Mas não é. Nunca é.
Apoio as mãos na parede e coloco o rosto debaixo do chuveiro, respirando fundo, tentando me ancorar em algo real.
Na água quente, no azulejo frio, no meu corpo aqui. Agora.
Seguro.
Repito a palavra em silêncio.
Uma vez.
Duas.
Três.
Até ela começar a perder o sentido.
Porque, no fundo… eu sei que não estou segura. Não de verdade.
Não enquanto Simon e a história perfeitamente construída na mente dele ainda estiverem por aí.
Esperando.
Para me transformar na protagonista de algo que eu nunca escolhi.

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