“Lucas Sinclair”
O som dos bonecos batendo um no outro ecoa pela sala enquanto Oliver narra uma batalha que, na cabeça dele, provavelmente está salvando o mundo.
— O Homem-Aranha não perde — ele diz, sério, como se fosse uma lei universal.
— Perde sim — Liam rebate, jogando o boneco contra o sofá. — O Hulk ganha de todo mundo.
— Não ganha!
— Ganha!
— Liam, você é muito chato!
— Você que é.
Ivy ri baixinho ao meu lado, levando a xícara de café até os lábios. Minha mãe observa os dois com um olhar tão carregado de carinho que me surpreende, enquanto meu pai finge ler alguma coisa no tablet que claramente não está lendo.
Sophia está sentada na outra ponta do sofá, com a perna cruzada, segurando a xícara com as duas mãos, quieta demais para alguém como ela.
Desde o almoço, a conversa entre nós gira em torno de assuntos neutros. Trabalho, universidade, escola dos meninos… qualquer coisa que não toque no que realmente está acontecendo.
Ninguém menciona Chicago.
Ninguém menciona a partida da minha irmã amanhã.
É quase impressionante o esforço coletivo para adiar algo que todos sabemos que vai acontecer de qualquer forma.
O celular vibra no meu bolso. Olho para a tela: Annie, minha assistente.
Peço licença e vou atender no corredor.
Em menos de três minutos, ela me passa os últimos detalhes para a chegada da Sophia amanhã.
Quando desligo, fico parado no corredor por um momento, com o celular na mão.
Tudo está pronto. Isso deveria ser simples, mas não é.
Porque logística nunca foi o problema. Reservas, rotas, segurança, equipe… isso eu resolvo sem pensar. Sempre resolvi.
Porque não é apenas por um problema operacional da empresa. Isso, por mais complicado e cansativo que seja, eu conseguiria resolver daqui.
O problema nunca foi fazer as coisas acontecerem. É aceitar o motivo pelo qual elas precisam acontecer.
Chicago não é só uma solução.
É a confirmação de que eu não consegui manter minha irmã segura na cidade onde sempre mantive tudo sob controle.
Respiro fundo, passando a mão pelo rosto, forçando a máscara de normalidade a voltar para o lugar.
Porque todas as pessoas ao meu redor estão sentindo o peso dessa mudança, e é justamente por isso que preciso fingir que não é tão difícil quanto parece.
Por isso, preciso fingir que isso é só mais uma decisão estratégica, mais uma movimentação calculada, mais um ajuste necessário.
Mesmo não sendo.
Ele não responde. Só espera o restante, como se já soubesse que ainda não cheguei ao ponto principal.
— Mas uma coisa não anula a outra. Você vai estar com ela em outra cidade. Vai ver cada parte dela que muita gente não vê, nem percebe.
Blake sustenta meu olhar sem recuar.
— Então, quero que entenda uma coisa — continuo, sem baixar a voz, mas também sem elevar. — Se, em algum momento, você esquecer que a sua função é protegê-la e começar a olhar para a minha irmã como homem, não vai perder só um contrato comigo.
O maxilar dele se contrai de leve, quase nada, mas eu vejo.
— Vai perder a sua empresa. Vai perder qualquer chance de trabalhar para qualquer pessoa que tenha o mínimo de poder de escolha neste país. E, se depender de mim, não vai mais proteger nem o cachorro de madame do Upper East Side.
O silêncio entre nós dura dois segundos.
Blake não parece ofendido, nem intimidado. O que vejo é algo mais útil do que isso.
Compreensão.
— Isso não vai acontecer, senhor — ele responde, direto.
— Espero sinceramente que não.
Ele assente uma vez, em silêncio. Me afasto sem olhar para trás, porque essa conversa acabou.
E, porque, se eu ficar mais um segundo, vou começar a pensar em coisas que não posso controlar.

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