Lorenzo Velardi
A tempestade não dava trégua.
A água despencava do céu com uma fúria quase divina, como se o próprio universo tivesse decidido despejar sobre mim todo o peso daquilo que eu tentava esconder até de mim mesmo. A chuva batia contra o pára-brisa com a violência de mil verdades que eu não queria encarar. Era intensa, implacável, quase punitiva. O tipo de chuva que parecia querer arrancar da pele e da alma tudo o que já não servia mais. Mas nem toda aquela água, nem mesmo um dilúvio, conseguiria me purificar da única coisa que me corroía por dentro: Isabella Fernandes.
Meus dedos apertavam o volante com tanta força que os nós ficaram brancos. Os limpadores mal conseguiam afastar a torrente que embaçava meu campo de visão, mas aquilo era o de menos. Eu podia estar dirigindo no escuro, de olhos fechados, em meio ao fim do mundo, que nada do que estivesse do lado de fora se comparava à devastação que eu carregava dentro de mim.
Tudo em mim era ruína.
Nem o sexo frenético e descarregado, nem os corpos suados e ofegantes de mulheres que se jogavam em minha cama em busca de uma noite de prazer, conseguiam me oferecer alívio. Nem mesmo Valentina, com sua pele perfeita, sua boca faminta e seus gemidos que antes bastavam… nem ela foi suficiente para calar o nome que ecoava, persistente, dentro da minha mente.
Isabella.
Maldita seja essa garota, pensei, mesmo sabendo que era eu o verdadeiro amaldiçoado. Bastava pensar em seus olhos, naquele sorriso tímido que se formava no canto dos lábios, no jeito que ela baixava o olhar quando se sentia exposta… e meu peito apertava com uma intensidade dolorosa. Era um desejo que me fazia perder a razão. Um anseio silencioso que crescia, ganhava forma, dominava meus dias e consumia minhas noites.
Eu me odiava por isso. Porque cada mulher que eu tomava era apenas uma tentativa desesperada e falha, de arrancá-la de mim. De substituí-la, de esquecer. Mas quanto mais eu tentava apagá-la, mais ela se gravava, como uma tatuagem sob a pele da minha alma.
Pisei na garagem como um homem em guerra. A chuva martelava o capô do carro, criando uma sinfonia sombria que reverberava nos meus ossos. Desliguei o motor, mas não consegui sair de imediato. Permaneci ali, imóvel, com o peito arfando e os olhos fixos no nada. A lua despontava por entre as nuvens densas, lançando sua luz pálida sobre a paisagem, e eu pensei em como algo tão sereno podia coexistir com o tumulto que habitava dentro de mim.
Quando finalmente saí, deixei que a chuva me envolvesse. Não me importei com o tecido da camisa que se colava ao meu corpo, nem com o paletó ensopado que pesava nos ombros, nem com os cabelos escorrendo sobre minha testa. Eu era um homem afogado em sua própria culpa. Um náufrago dos próprios desejos.
A mansão me recebeu com um silêncio sepulcral. O eco dos meus passos sobre o mármore frio era o único som além da tempestade. Subi as escadas no escuro, como um ladrão que conhece bem o caminho. Não precisava de luz, a memória e a dor me guiavam.
Parei diante do quarto de Aurora.
Respirei fundo e abri a porta com o cuidado de quem carrega dinamite no peito. A luz suave do abajur em formato de nuvem banhava o quarto com uma delicadeza que fazia doer os olhos. E lá estava ela. Minha filha, a razão de eu ainda estar respirando.
Dormia tranquila, abraçada às bonecas, alheia à tempestade, tanto a de fora quanto a de dentro de mim. Seu rosto era uma pintura de paz, e eu me senti indigno de tanta pureza.
Ajoelhei-me ao lado da cama e passei a mão molhada pelo rosto dela, com uma ternura que só ela despertava em mim.
E então… um som. Um leve movimento. A respiração dela mudou. Teria ela percebido minha presença?
O pânico me atravessou como um raio. Afastei-me da porta com o coração aos pulos. Estava na beira do abismo e quase havia pulado. Voltei ao meu quarto com passos trôpegos, tomado por uma mistura de medo e desejo. Bati a porta com força, rasguei a camisa do corpo como se quisesse arrancar o que havia me corrompido por dentro.
Mas não era o corpo de Valentina que ainda me assombrava. Era o toque que eu não tive, o beijo que não dei, o amor que não podia existir… mas existia.
Sentei-me na poltrona ao lado da janela, observando a água escorrendo do céu como lágrimas de um deus envergonhado. O uísque sobre a mesa parecia distante. Nada naquele momento poderia anestesiar o que eu sentia. Porque o que me queimava não era luxúria. Era algo mais profundo, mais perigoso. Era amor, disfarçado de obsessão. Ou obsessão que já tinha virado amor, não sabia mais distinguir.
E era por ela.
Isabella Fernandes.
Amá-la seria minha ruína. E ainda assim… cada célula do meu corpo já ansiava pelo desastre.

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