"Lorena"
Eu peguei o envelope dentro da minha bolsa mais uma vez. Aquilo estava rodando na minha cabeça há uma semana. Eu corri os dedos sobre a caligrafia perfeita dele no guardanapo, onde o papel quase rasgou e uma pequena mancha de sangue dava o tom da escrita, a mensagem que eu já havia decorado dizia:
"Eu não pago pelo seu tempo, Scarlat... eu pago para que você nunca se esqueça de que agora me pertence. Quer me desafiar? Faça isso pessoalmente. Eu não aceito devoluções."
Aquelas palavras eram como correntes e toda vez que eu tocava o papel eu tremia. Ele não queria apenas uma "uma dose do veneno", ele queria um troféu. E o "faça isso pessoalmente" martelava na minha cabeça como um convite para o desastre.
Eu havia convencido o Barão a não me mandar para aquele camarote na semana anterior, dizendo que seria vantajoso deixar aqueles homens sentirem a minha falta e depois gastarem mais na boate e também para não despertar o ciúme das outras meninas, o que seria um problema. Eu passei a noite contando o estoque, mas pelo menos não dei de cara com aquele arrogante. Contudo, eu sabia que não poderia fugir dele para sempre.
Por que aquele homem não podia simplesmente me deixar em paz? No fim das contas ele teve o que queria, por que não pegava o rico dinheirinho dele de volta e me esquecia?
- Duelando com esse envelope de novo, Lorena? - A Dalva questionou assim que chegou à pequena sala.
- Eu nunca me senti tão humilhada, Dalvinha! Ele me tratou como uma prostituta! - Eu me queixei mais uma vez.
- Sabe, eu concordo com a Lina, esse homem j**a dinheiro pelos ares, talvez ele tenha sido apenas generoso sem pensar que te ofenderia. Gente rica não acha que dinheiro ofende, Lorena.
Claro que eu tinha contado tudo para a Dalva e para a Lina, elas eram as duas únicas amigas que eu tinha e as únicas pessoas que me estenderam a mão. E quando eu cheguei em casa depois da noite que eu passei com aquele homem, eu estava tomada pela fúria, quase arrancando os cabelos e as duas me ouviram pacientemente.
- Pelo menos ele não acha que eu sou uma prostituta barata.
Eu dei um sorriso amargo, minha dignidade havia sido estilhaçada pelo golpe que o meu ex noivo e a minha ex amiga me deram e os cacos foram varridos do mapa pelo cavalheiro arrogante, lindo e gostoso, da boate.
- Levanta a cabeça, Lorena. Você é melhor que isso. Agora me diz, está confiante para a entrevista de hoje? - A Dalva perguntou com um sorriso afetuoso.
- Não muito. - Eu suspirei desanimada. - É uma empresa enorme, Dalva, seria um sonho conseguir esse trabalho, mas depois de tantas portas fechadas, eu estou desanimando mesmo. Porém, mesmo que eu consiga, eu vou continuar servindo as mesas na boate, as gorjetas lá são muito boas e eu preciso juntar todo o dinheiro que eu puder. Pelo que o advogado me disse as dívidas não param de crescer. Eu acho que eu nunca vou conseguir sair disso, Dalva.
- Coragem, Lorena! Eu te conheço o suficiente para saber que você não fica por aí se fazendo de coitadinha. As coisas vão dar certo para você e você vai conseguir provar a sua inocência.
A Dalva estava sempre disposta a me apoiar e isso tinha sido a única coisa boa no meio do desastre que atingiu a minha vida. Eu joguei o envelope dentro da minha mala, a fechei e coloquei embaixo do sofá. Depois fui até a Dalva e dei um abraço nela.
- Obrigada, Dalvinha, por não me deixar desistir. Agora eu vou indo para a minha entrevista, cruze os dedos.
Eu levei uma hora e meia para atravessar a cidade e chegar naquele prédio luxuoso que abrigava um dos maiores conglomerados empresariais do país. Ter conseguido aquela entrevista já tinha sido uma grande sorte. Eu me aproximei da recepcionista que estava se desdobrando entre atender a quatro homens de terno diante dela, dois telefones tocando insistentemente e uma quantidade ofensiva de papéis e pastas sobre a sua mesa.
- Senhorita, nós temos horários marcados, quando irão nos atender? - Um dos homens perguntou de forma beligerante.



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