"Lorena"
Eu entrei no pátio da pequena vila onde a Dalva morava e me sentei no segundo degrau da escada. Eu nem tinha ânimo para subir. Eu estava procurando trabalho há uma semana e tudo o que eu recebi foram portas na cara. Aparentemente a minha derrocada financeira tinha se tornado um escândalo que correu no meio empresarial e eu não era confiável o suficiente para um cargo de contabilidade.
- Nossa, que cara de derrota é essa, Lorena? - A Marcelina se aproximou com a sua saia curta, jogando o cabelo cacheado de lado e estourando uma bola de chicletes. - Deu ruim na entrevista que você foi?
- Deu péssimo, Lina! - Eu afundei o rosto nas mãos. - Nem pude fazer a entrevista. Quando viram o meu nome já me dispensaram, porque ter uma contadora envolvida em uma fraude financeira espanta os clientes.
- Pior pra eles! Não fica chateada, Lorena, vai aparecer alguma coisa, às vezes demora mesmo, você não pode é desistir. - A Marcelina sempre tinha uma palavra positiva, mas eu precisava de um emprego.
- Eu preciso de um trabalho, Lina, não posso ser um fardo para a Dalvinha. Ela está sendo tão generosa, eu não quero abusar. Além do mais, eu preciso de um advogado também. - Eu desabafei.
- Olha, eu posso te emprestar uma grana. Eu tenho um dinheirinho assim para emergências e você tá na emergência. Você me paga quando der. E o advogado, eu posso te apresentar um e falar pra ele não te cobrar.
- E de onde você conhece um advogado? - Eu olhei para ela que riu.
- É o filho do Sr. Raimundo do duzentos e vinte. Ele não tem muita experiência, mas é esperto e é advogado. Eu falo com ele e ele nem vai te cobrar até você começar a trabalhar.
- Se ele vai trabalhar de graça, ele não é muito esperto. - Eu brinquei e ela riu.
- Lorena, você ainda não se deu conta? Por aqui a gente se ajuda, porque todo mundo aqui sabe o que é uma vida difícil. Anda, levanta essa cabeça, porque você não é herdeira e tem contas pra pagar. - Ela cutucou o meu ombro, me fazendo rir daquela situação caótica em que eu me encontrava.
No meio de todo o caos que a minha vida tinha se transformado eu encontrei apoio e gentileza no meio de pessoas que compartilhavam o pouco que tinham e ofereciam apoio, abrigo e amizade sem pedir nada em troca. Enquanto aqueles que eu chamava de amigos, me traíram, me roubaram, me viraram as costas e fingiram que nem me conheciam.
- Lina, aquela vaga de garçonete ainda existe?
- O quê, lá no "Infernal"? - Ela deu uma boa risada. - A Dalva me mata!
- É sério, Lina, eu preciso do trabalho, a Dalvinha sabe, e você disse que é só servir mesas. - Eu insisti.
- É só servir mesas com um vestido curto, salto alto, uma maquiagem pesada, uma peruca e chifres. E aguentar os clientes bêbados. - A Marcelina me encarou por um momento.
- É perfeito, Lina, ninguém nem vai saber que sou eu.
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Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite