Enoch
O sol da tarde batia quente nas minhas costas, mas a brisa que vinha do vale equilibrava tudo. Eu estava agachado no meio do terreno, trena na mão, marcando o ponto exato onde ia ficar a piscina principal do resort. O cheiro de terra recém-mexida, pinheiro e pedra aquecida preenchia minhas narinas de um jeito que me deixava absurdamente satisfeito.
Era bom estar aqui. Longe do caos, longe das guerras antigas, longe de Atlas e de tudo que meus irmãos mais velhos carregavam nas costas. Aqui era só futuro. Nosso futuro.
"Enoch, você tem certeza que a fundação da suíte master fica exatamente aqui?" Laura se aproximou, óculos de sol na cabeça, prancheta na mão, o cabelo castanho ondulado balançando com o vento. Ela parou do meu lado, cheirando levemente a protetor solar de coco e café. "Porque se eu mover três metros pra esquerda, a vista pro lago fica perfeita."
Eu levantei o olhar pra ela e sorri sem querer. Ela era linda assim: prática, decidida, com aquela energia humana que não se deixava intimidar por nada.
"Certeza absoluta eu não tenho de nada na vida", respondi, me levantando e limpando a terra das mãos na calça jeans. "Mas meu nariz tem."
Ela ergueu uma sobrancelha, divertida.
"Seu nariz, é?"
"Sim." Aproximei um passo, só o suficiente pra sentir o calor do corpo dela. "Aqui embaixo tem uma veia de água subterrânea correndo a uns quatro metros de profundidade. Se a gente cavar a piscina exatamente nesse ponto, vai ter fonte natural o ano todo. Água fresca, cristalina. Os hóspedes vão amar."
Laura me olhou por uns segundos, depois soltou uma risada baixa.
"Você e o Riuk são iguais mesmo, sabia? Ele também fica farejando tudo como se o mundo fosse um grande buffet de cheiros. Não sei como conseguem. E de verdade, isso é estranho pra caramba. Parece até um cachorro, credo."
Eu ri, passando a mão no cabelo.
"Nascemos assim, não tenho como explicar e se tivesse você não entenderia. Só aceite que esse é o melhor ponto para a piscina."
Ela cruzou os braços, fingindo ceticismo, mas os olhos brilhavam.
"Tá tentando me impressionar, Enoch?"
"Talvez", admiti, sem desviar o olhar. "Tá funcionando?"
Laura mordeu o canto do lábio, pensando.
"Um pouco", confessou, e eu senti meu peito aquecer de um jeito idiota. "Mas eu ainda preciso de números, não de super-sentidos."
Eu ri de novo e estendi a trena pra ela.
"Então vem cá. Vamos medir juntos."
Ela se aproximou mais, o ombro roçando no meu enquanto pegava a ponta da trena. Nossos dedos se tocaram por um segundo. Nenhum dos dois afastou.
"Vinte e oito metros exatos", ela anotou na prancheta. "Perfeito pra piscina olímpica que o investidor quer."
"E com borda infinita pro lado do vale", completei. "Imagina só: hóspedes tomando drink ao pôr do sol, vendo o lago lá embaixo refletindo o céu. Sem barulho de cidade. Só vento, pássaros... e talvez um lobo ou dois uivando de longe pra dar clima."
Ela virou o rosto pra mim, tão perto que eu via as sardas leves no nariz.
"Lobos, Enoch?"
"Por que não?", respondi, voz mais baixa. "Tem medo de lobos, Laura?"
"Claro, lobos são perigosos e sanguinários. Ao invés de atrair clientes, os afastaríamos. Vou anotar aqui que temos que fazer uma busca por matilhas, se tiver, temos que realocá-los."
"Lobos não são perigosos", bufei, e ela me encarou.
"Como não, com aqueles dentes enormes, rosnando e uivando. Eu correria para longe se visse um."
Sorri de lado.
"E ele te alcançaria em segundos."
Ela tremeu de leve. Eu me aproximei um pouco mais.
"Mas não se preocupe que eu posso te proteger."
Ela então gargalhou.
"Você, me proteger?"
"Isso aqui vai ser incrível, Enoch", ela disse baixinho. "Um lugar pra pessoas respirarem. Pra se reconectarem."
"E você? Vai ficar aqui quando estiver pronto? Ou vai só projetar e partir pro próximo?"
Laura ficou quieta um segundo, depois virou pra mim.
"Não sei. Depende."
"De quê?"
Ela sorriu, maliciosa.
"De quantos motivos eu tiver pra ficar."
Meu coração deu um pulo idiota. Me aproximei devagar, dando tempo pra ela recuar. Ela não recuou.
"Eu posso te dar vários motivos", murmurei.
Nossos rostos estavam a centímetros. Eu sentia o calor da pele dela, o batimento acelerado. Ia beijá-la. Ia mesmo.
Mas o rádio do mestre de obras crepitou ao longe, chamando pra conferir uma entrega. Laura riu baixinho e se afastou um passo, os olhos brilhando.
"Depois a gente continua essa conversa, garoto."
Respirei fundo, controlando o impulso.
"Promete?"
"Prometo."
E ali, com o sol se pondo atrás das montanhas, o terreno aberto à nossa frente e o futuro parecendo tão leve quanto a brisa, eu acreditei nela.
Nada podia dar errado naquele dia.

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