Ryuk
A noite nas montanhas era um breu absoluto, o tipo de escuridão que engole até os pensamentos. O vento cortava como lâmina, carregando flocos de neve que picavam a pele exposta. Eu estava agachado na borda do acampamento improvisado, olhos fixos na barreira mágica que pulsava a uns duzentos metros dali, vermelha, dourada, viva. Atlas estava do outro lado. Eu sentia o cheiro dele no ar, podre e antigo.
Os batedores tinham voltado há pouco, sem novidades. Os rastreadores ainda vasculhavam as encostas, procurando lobos desgarrados dos rebeldes, alguém que pudéssemos interrogar. Qualquer coisa que indicasse uma passagem, uma fresta, um ponto fraco naquela maldita muralha de runas.
"Mais dois voltaram sem qualquer informação, alfa", disse Kael, um dos meus melhores rastreadores, parando ao meu lado. A voz dele estava baixa, respeitosa. "Nenhum rastro de entrada lateral. Os desgarrados ou estão mortos ou se esconderam bem."
Eu grunhi, sem tirar os olhos da barreira.
"Continuem procurando. Não vamos dormir até achar. Quanto mais tempo demorarmos, mais demoraremos para ir para casa."
Ele assentiu e desapareceu na escuridão novamente.
Meu peito doía. Não era só o frio. Era o vazio onde o vínculo com Rubi deveria estar. Fazia dias que eu não sentia nada além de um fio gelado, quase rompido. Eu queria pegar o rádio, ligar pro bunker, ouvir a voz dela, saber que ela e o bebê estavam bem. Só isso já seria suficiente pra me manter são.
Mas eu sabia que não ia aguentar. Se ela estivesse mal, se algo tivesse acontecido… eu perderia o controle aqui mesmo, no meio dos meus lobos, diante da barreira. A fera explodiria e eu não teria mais o controle. Ele faria o que fosse necessário por ela e por nosso filho.
Então guardei o rádio no bolso outra vez, os dentes cerrados.
Eron se aproximou, passos silenciosos na neve. Ele estava quieto desde o amanhecer, os olhos sempre na barreira como se pudesse decifrá-la só com força de vontade.
"Você devia tentar ligar", ele disse, parando ao meu lado. A voz baixa, quase gentil. "Libby deve ter notícias."
"Não." Minha resposta saiu mais seca do que eu queria. "Se eu ouvir a voz dela e algo estiver errado, eu não vou me segurar. Estamos perto de acabar com isso, e quero finalizar, para ter todo o tempo do mundo com os dois."
Eron ficou em silêncio por um momento, depois deu de ombros.
"Tudo bem. Então eu ligo."
Eu virei o rosto pra ele, franzindo a testa.
"Você não tem esse autocontrole todo que acha que tem, Eron."
Ele deu um sorriso torto, sem humor.
"Eu tenho o suficiente pra não derrubar uma montanha inteira se a notícia for ruim. Você não."
Antes que eu pudesse responder, ele já estava se afastando, o rádio na mão, caminhando para longe do círculo de tendas. A silhueta dele sumiu rápido na escuridão.
Eu voltei pra dentro da minha tenda, precisando de um minuto longe dos olhares dos outros. O espaço era pequeno, cheiro de lona e couro, uma lanterna fraca pendurada no teto. Sentei no saco de dormir, esfreguei o rosto com as mãos.
Pensei em Rubi. Na barriga dela começando a arredondar. No jeito que ela ria quando o bebê chutava forte. No cheiro dela depois do banho, misturado com o meu. Eu prometi que voltava logo. Prometi.
O vazio no vínculo latejava como uma ferida aberta.
Respirei fundo, tentando me centrar. Uma última olhada no mapa espalhado no chão, marcado com possíveis rotas alternativas. Nada útil ainda.



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