Riuk
O vento cortava como lâmina, carregando o cheiro metálico de sangue antigo e magia queimada. A noite nas montanhas era um vazio gelado, o solo congelado rangendo sob minhas botas a cada passo. Não havia neve cobrindo os rastros, apenas terra dura, pedras cobertas por uma camada fina de gelo que refletia fracamente a luz das lanternas.
Eu não conseguia parar de mover. Liderava o grupo principal, farejando cada detalhe, procurando qualquer sinal de Eron. O poder novo ainda pulsava quente nas minhas veias depois de absorver a nuvem negra, mas parecia inútil agora. Não ajudava a encontrar meu irmão.
"Alfa Riuk!", gritou Lira, uma das rastreadoras mais jovens, a uns oitenta metros à direita. Corri até lá, Kael e mais quatro logo atrás.
Era sangue. Manchas escuras no solo congelado, já endurecendo com o frio. Gotas espalhadas, como se ele tivesse corrido cambaleando. Ao lado, pedaços de tecido queimado, a manga da jaqueta dele, reconheci pelo cheiro.
Meu peito apertou tanto que doeu respirar.
"Ele passou por aqui", murmurei, agachando pra tocar o sangue com os dedos. Ainda tinha um resquício de calor, mas estava esfriando rápido. "Ferimento grave. Temos que acelerar."
Kael se agachou ao meu lado, lanterna iluminando o chão.
"As pegadas estão arrastadas. Calcanhar fundo, ponta rasa. Mancando do lado esquerdo. Foi na direção do lago."
Eu assenti, mas por dentro a culpa era uma faca girando. Eu devia ter percebido que ele tinha se afastado demais. Devia ter chamado ele de volta antes do ataque. Minha cúpula salvou todo o acampamento… menos o meu irmão. O que isso fazia de mim? Um alfa que protegia os seus, mas deixava a família sangrar?
"Dividam-se em três grupos", ordenei, levantando-me. Minha voz saiu mais rouca do que pretendia. "Lira, você e os seus vão pela margem oeste do lago. Kael, margem leste. Eu pego o centro e a encosta norte. Gritem ao menor sinal. Não parem até achar."
Os lobos assentiram e se espalharam imediatamente, lanternas balançando na escuridão.
Começamos a busca de verdade.
Passamos horas varrendo cada metro daquela encosta maldita. O frio queimava a pele exposta, o vento uivava entre as pedras como se risse de nós. Encontramos mais sangue perto de um grupo de pinheiros retorcidos, uma poça maior, como se ele tivesse caído ali e se apoiado pra levantar. O cheiro de queimado era mais forte, misturado com suor e medo.
"Aqui ele parou pra respirar", disse Kael, chegando com seu grupo. "Olha as marcas de joelho no chão gelado."
Eu toquei as marcas, sentindo o formato dos joelhos dele. Meu irmão, caído ali, sozinho, queimando vivo.
"Ele não desistiu", murmurei. "Continuem."
Mais adiante, perto da beira do lago, achamos um dos tênis dele. Meio carbonizado, jogado contra uma pedra como se tivesse sido arrancado na correria. O lago estava congelado na superfície, uma camada fina de gelo que rangia com o vento. Pedaços de roupa boiavam na água rasa da margem, retalhos da camisa, pretos e encolhidos pela nuvem negra.
"Ele entrou na água", disse Lira, voz baixa. "Tentou se esconder."
Eu olhei pro lago escuro, o reflexo das lanternas dançando na superfície gelada. Senti ele então, uma pontada fraca no laço de sangue."
"Ele tá vivo", falei alto, pra todos ouvirem. "Perto. Procurem por buracos e cavernas. Deve haver algum lugar para onde ele deve ter corrido para se esconder."
As buscas recomeçaram e todos estavam em alerta até que alguém encontrou uma passagem
"Aqui!"
Corremos de novo. A entrada era estreita, quase escondida por arbustos secos e pedras cobertas de gelo. O cheiro veio forte assim que nos aproximamos: carne queimada, infecção começando, suor febril. Eron.
"Eron!", gritei, entrando sem esperar, os olhos lupinos cortando a escuridão úmida da caverna.
Ele estava lá no fundo, encolhido contra a parede fria, o corpo tremendo violentamente. O lado esquerdo era um horror: pele escurecida, queimada em terceiros graus, bolhas rompidas, carne exposta em alguns pontos. O rosto pálido como cinza, lábios rachados, olhos semicerrados pela febre alta.
"Riuk...", a voz dele saiu um fio rouco, quase inaudível. "Você... demorou."
Eu me ajoelhei ao lado dele devagar, as mãos pairando no ar, com medo de tocar e piorar.
"Desculpa, irmão. Ah, caralho. Eu devia ter te protegido."
Ele tentou sorrir, mas virou uma careta de dor.
"A nuvem... me pegou de cheio. Eu tava no rádio com Libby quando desceu. Tentei correr pro acampamento, mas era rápido demais. Entrei no lago, mergulhei fundo... a água gelada ajudou um pouco, apagou o pior. Mas aquela merda ainda assim me pegou."
Toquei o braço bom dele com cuidado, sentindo o calor insano da febre.
"Ainda tem magia? Sente alguma coisa?"



VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Apaixonada pelo Alfa Errado