Riuk
A barreira pulsava à minha frente como um coração doente, runas vermelhas e douradas dançando na superfície translúcida. Eu parei a poucos metros, os lobos em formação atrás de mim, armas prontas, olhos fixos.
Fechei os olhos por um segundo e senti.
A magia que eu tinha absorvido da nuvem negra, o gosto podre, antigo, familiar, vibrava no meu peito. Era a mesma assinatura da barreira. O mesmo sangue. O sangue do Vincent.
Estendi a mão devagar, palma aberta.
Da primeira vez que toquei aquela muralha, dias atrás, ela queimou como ácido. Agora… nada. Apenas um calor crescente, como se reconhecesse o dono verdadeiro.
A magia absorvida se agitou dentro de mim, atraída. Meu lobo rosnou baixo, satisfeito, festejando no peito enquanto o poder de Atlas começava a fluir na minha direção, lento no começo, depois como um rio.
Senti a barreira enfraquecer. Runas piscando, perdendo brilho.
Com um movimento firme do braço, puxei tudo.
A muralha estilhaçou com um estrondo que fez o chão tremer. Pedaços de energia vermelha caíram como vidro quebrado, dissipando no ar frio.
Um cheiro podre invadiu tudo, morte, decomposição, magia corrompida. Os lobos atrás de mim cobriram o nariz, rosnando de nojo.
Pela primeira vez, vimos o coração da fortaleza de Atlas: uma construção antiga de pedra negra, torres tortas, luzes vermelhas piscando nas janelas como olhos malignos. O vale inteiro estava contaminado.
"Avancem", ordenei, voz grave. "Kael, Lira, vão pelas laterias. Eu vou pelo centro. Cuidado, agora ele vai jogar tudo que tem."
Os lobos uivaram em resposta e avançamos.
Mal tínhamos percorrido cem metros quando eles apareceram: lobos de olhos roxos, sem vida própria, movendo-se como marionetes. Magia pura, sem instinto. Sem alma.
Meu lobo aflorou imediatamente. Magia e fera se fundiram, olhos mudando para roxo-dourado. A diferença entre mim e ele.
Avançamos como uma matilha. Garras rasgando carne controlada, presas quebrando ossos, magia prateada explodindo peitos. Eu ia na frente, derrubando três de uma vez com um golpe de garra carregado de poder.
Uma nuvem de insetos mágicos desceu do céu, zumbindo, venenosos.
Estalei os dedos.
Uma onda prateada-dourada irrompeu de mim, incinerando todos em segundos. Cinzas caíram como chuva negra.
Eu sorria agora. Conseguia ler cada truque dele. Cada runa. Cada intenção. O poder roubado dele me dava visão perfeita.
Outra onda veio, maior, uma parede de energia vermelha tentando nos esmagar.
Estendi os braços.
Meu poder, forjado no bruxo e no lobo, encontrou o dele no ar. Parou. Tremou. E então virou.
A onda vermelha se voltou contra a fortaleza, batendo nas muralhas com força suficiente pra rachar pedra. Os lobos de olhos roxos vacilaram, o transe quebrando. Um a um, eles piscaram, confusos, e fugiram correndo para as montanhas, livres do controle.
"Continuem!" gritei.
Mas do lado de Atlas apenas o silêncio existia.
Então palmas lentas ecoaram do topo da torre central.
Atlas desceu os degraus quebrados, capa negra ondulando, olhos roxos brilhando de ódio contido. Ele parou a dez metros de mim, sorrindo frio.
"Posso ver que meu irmãozinho aprendeu a dominar sua magia. Excelente. Mas dois meses de prática é diferente de uma vida inteira."
Eu sorri de volta, sentindo o lobo se expandir no peito, pelagem prateada começando a brotar nos braços.
"Te digo o mesmo, Atlas. Você não pode colocar seu lobo no jogo agora. Ele não sabe caçar."
O rosto dele se contorceu. A fúria venceu o controle.


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