Laura
Eu não conseguia parar de olhar pra ele.
O sol da tarde estava morrendo no horizonte, pintando o terreno inteiro de laranja e dourado, e Enoch estava lá, do outro lado do canteiro de obras, conversando com o engenheiro chefe. Os dois debruçados sobre uma planta grande, o engenheiro apontando detalhes técnicos, falando de carga estrutural, drenagem, fundações profundas.
Enoch só ouvia, sério, de vez em quando se agachava, cheirava a terra como se fosse a coisa mais normal do mundo, e dizia “sim” ou “não”. Às vezes dava uma explicação curta: “aqui tem água demais”, “esse solo afunda em três anos”. E o engenheiro anotava tudo, concordando.
Eu não entendia porra nenhuma daquilo.
Como ele sabia? Era intuição? Experiência? Algo de família? Porque o Riuk fazia exatamente a mesma coisa quando a gente o via planejando os novos projetos. E eu já tinha visto a Libby farejar uma trilha uma vez, como se fosse um cachorro de caça. Será que era coisa de gerações? Algum dom esquisito do clã deles?
Não. Tinha algo diferente ali. Algo que eu não conseguia explicar, mas que funcionava. Porra, como funcionava. O projeto estava saindo perfeito por causa disso.
Sacudi a cabeça, tentando afastar o pensamento. Não era hora de ficar filosofando sobre a família do meu chefe. Era hora de finalizar os relatórios do dia e ir embora.
Mas aí Enoch terminou a conversa, apertou a mão do engenheiro e veio andando na minha direção. Passo firme, camisa suada grudada no peito, cabelo bagunçado pelo vento. Sorriso de canto de boca que me deixava sem ar.
“Finalizamos por hoje”, disse ele, parando perto demais. O cheiro do perfume dele invadiu tudo. “Quer ir tomar um café?”
Eu olhei de lado, fingindo verificar a prancheta.
“Não posso. Ainda tenho uns relatórios pra finalizar.”
Mentira. Eu já tinha terminado há meia hora. Mas aceitar seria perigoso. Ele era o irmão do meu chefe. Se algo desse errado, complicava tudo. Trabalho, amizade, projeto. Eu não podia arriscar.
Mas também… eu queria. Queria pra caralho experimentar aquilo que estava crescendo entre a gente há dias. Os olhares longos, as brincadeiras, as conversas que duravam mais do que o necessário. Ele me deixava mexida de um jeito que eu não sentia há anos.
Enoch se aproximou mais um passo, abaixando a voz.
“O que é, Laura? Tem medo de ficar sozinha comigo?”
Eu levantei o rosto, encarando ele.
“Medo? Por que eu teria medo?”
Ele sorriu, aquele sorriso lento, perigoso, que fazia meu estômago virar.
“Não sei. Mas você foge toda vez que eu chego perto.”
Eu abri a boca pra negar, mas ele já estava mais perto ainda. A mão dele subiu devagar, tocando meu rosto. Dedos calejados, quentes, traçando a linha da minha bochecha.
“Então”, murmurou, voz rouca, “você não vai se importar se eu te beijar. Já que estamos completamente sozinhos.”
Meus olhos se arregalaram. O ar sumiu dos pulmões. Eu devia me afastar. Devia dizer não. Devia lembrar do trabalho, da minha amiga, do meu chefe, de tudo que podia dar errado.


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