Libby
Eu não conseguia parar de andar de um lado pro outro no corredor do bunker.
Desde aquela ligação cortada com Eron, a voz dele no rádio, calma, dizendo que estava tudo bem, que Riuk ia derrubar a barreira logo — e depois o silêncio absoluto depois que ele falou que a nuvem negra desceu. Nada. Nenhum sinal. Nenhum retorno.
Eu sabia que algo terrível tinha acontecido. Sentia no peito, como uma pedra gelada.
Mas eu não podia mostrar. Não pra Rubi, que estava na ala médica, ainda se recuperando da crise de quase perder o bebê. Não pra Cam, que já carregava o peso do clã inteiro nos ombros. Elas precisavam de calma, não de uma Libby surtando. Não de mais preocupações que poderia ser infundada.
Então eu sorria, dizia que era só interferência, que os meninos estavam bem. Mentira descarada.
Precisava de ar. Precisava de notícia.
Encontrei Ragnar no centro de comando, correndo de mapa pra rádio, coordenando reforços, olhos fundos de preocupação.
“Ragnar”, chamei, voz baixa pra ninguém mais ouvir. “Alguma novidade do Eron?”
Ele parou, respirou fundo, balançou a cabeça.
“Nada direto. A última coisa que sabemos é que Riuk entrou em ataque total contra Atlas. Eron não está no meio… porque está ferido.”
O mundo girou.
“Ferido como?”
“Grave. Queimaduras. Riuk encontrou ele numa caverna, levou pro acampamento. O que sei é que ele está sendo atendido.
Meu coração parou.
“Por que não me falou isso antes? Por que não me contou que...”
Ragnar abaixou ainda mais a voz.
“A nuvem de poder pegou ele de cheio. Nos relatos, o que sabemos é que ele estava fora da cúpula de proteção de Riuk. Queimaduras sérias. Ele tá vivo, mas… está ferido. Não sei a extensão do dano. Estou tentando uma transferência de emergência, mas não estão conseguindo acesso.”
Eu senti as pernas fraquearem. Eron. Meu Eron. O mais teimoso, o mais forte, o que sempre voltava rindo de tudo.
“Eu vou pra lá. Vou até onde ele estão, agora. Preciso ver ele, ajudar de alguma forma…”
Ragnar segurou meu braço, firme, mas gentil.
“Não, Libby. A gente não sabe o que ainda tá rolando lá fora. Riuk tá no meio da luta final. Se você for agora, pode colocar todo mundo em risco maior. Já mandei reforços médicos pro acampamento e pro hospital. Confia em mim. Logo ele estará aqui.”
Eu queria gritar, queria bater no peito dele, queria correr pro helicóptero e voar até meu companheiro. Mas ele tinha razão. Eu odiava que tivesse razão.
Meu celular vibrou no bolso.
Olhei a tela: Laura.
Rejeitei. Não era hora. Eu não tinha cabeça pra projeto agora.
Vibrou de novo. E de novo.
Atendi no quarto toque, voz seca.
“Laura, tô ocupada. Ligo depois, tá?”
Do outro lado, só choro. Choro desesperado, engasgado.
“Libby… por favor… é o Enoch… ele… ele sofreu um acidente…”
Meu sangue gelou.
“O quê? Calma, Laura, fala devagar. O que aconteceu?”
Ragnar ouviu o nome do filho e já estava ao meu lado, rosto pálido, puxando o próprio celular.
A voz do Riuk veio mais baixa.
“Tá a caminho de Denver. Eu… acabei com Atlas. Ele tá morto. Mas ele tinha uma cartada final. Ele sabia que não conseguiria ganhar então feriu meus irmãos para me atingir.”
Ragnar respirou fundo, o alívio misturado com dor.
“Você venceu, filho. Acabou.”
“Mas a que custo…”, murmurou Riuk.
Ragnar olhou pra mim, decidido.
“Libby vai pra Sidney verificar o Enoch. Eu fico aqui com Rubi e Cam. Mando notícias do Eron assim que chegar em Denver.”
Riuk concordou, voz firme apesar de tudo.
“Estou indo para Denver ver minha mulher e depois vou para Sidney ver Enoch. Fica com ele pra mim, Libby. Cuida dele até eu chegar.”
A ligação caiu.
"Eu não posso me afastar de Eron..." sussurrei.
"Mas Enoch está sozinho. Ele precisa de um de nós. A humana não sabe nada sobre nossa cura. Ele está em um hospital humano. Vá cuidar do meu filho, que assim que Eron chegar, eu lhe aviso de tudo." concordei com os olhos represados.
Eu já estava caminhando em direção ao hangar com o jato da família, o coração em pedaços.
Dois hospitais. Dois irmãos feridos. Uma vitória que parecia derrota.
Mas eles estavam vivos.
E isso tinha que bastar por enquanto.

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