Eron
A dor era tudo.
Cada respiração queimava como fogo vivo rastejando pela pele. Meu lado esquerdo, braço, peito, parte do rosto, era um inferno pulsante. A ambulância balançava na estrada esburacada, e cada solavanco era uma faca girando nas queimaduras. Eu tentava não gritar, mordia o lábio até sangrar, mas os gemidos escapavam mesmo assim.
"Quase lá, alfa. Uma pena o helicóptero ter sido atingido, teria sido mais fácil", disse o paramédico ao meu lado, voz profissional, mas com pena. "Estamos chegando em Denver. Hospital tem uma ala de queimados pronta pra você."
Eu mal ouvia. Minha mente estava lá fora, na montanha, com Riuk. Ele tinha que ter derrubado aquela barreira. Tinha que ter matado Atlas. Se não, tudo isso era em vão.
E Libby. Onde estava Libby? Eu precisava dela. Precisava ouvir a voz dela dizendo que ia ficar tudo bem.
"Mandem avisar a Libby", resmunguei, voz rouca como lixa. "Minha mulher... liguem pra ela."
O paramédico trocou olhar com o motorista.
"Calma, alfa. Vamos te estabilizar primeiro. Assim que der entrada, vão avisá-la."
Eu tentei relaxar, mas a dor explodiu de novo, e o mundo escureceu por um segundo.
Quando abri os olhos, estávamos no hospital. Luzes brancas cegantes, cheiro de antisséptico e carne queimada, minha própria carne. Enfermeiros me transferiram pra maca, rodas rangendo no piso.
"Ala de queimados", ouvi alguém dizer. "Queimaduras de terceiro grau no braço esquerdo, peito, face parcial. Paciente consciente, mas em choque. Avisem o Supremo que ele chegou."
Eles me levaram pra uma sala estéril, cheia de máquinas bipando, cheiro de pomadas fortes. Mãos com luvas me viraram, tiraram o tecido que cobria meus ferimentos, expuseram as bolhas rompidas, a carne vermelha e preta.
Dor. Dor sem fim.
"Riuk... onde tá Riuk?", perguntei, voz fraca. "Chama Libby... por favor."
Ninguém respondia. Eles estavam ocupados, injetando algo no braço bom, limpando as feridas com gazes frias que ardiam como ácido no começo, mas depois aliviavam um pouco. Pastas especiais, grossas, brancas, espalhadas com cuidado.
"Essas pomadas são pra ferimentos... especiais", murmurou uma enfermeira, voz baixa. "Pra lobos. Vai ajudar a cicatrizar mais rápido."
Eu sabia. Elas tinham ervas antigas, compostos que aceleravam a regeneração lupina. Mas mesmo assim, a dor não parava. Meu lobo... onde estava meu lobo? Eu tentava chamá-lo, sentir a força alfa correndo nas veias, mas só tinha vazio. A nuvem tinha queimado algo dentro de mim. Não era mais só pele. Era a essência.
Eu olhava pra porta o tempo todo, esperando ela se abrir. Esperando Riuk entrar rindo, dizendo que tinha acabado. Ou Libby correndo, braços abertos.
Mas nada.
Quanto tempo passou? Horas? Minutos? A dor distorcia tudo.
Finalmente, a porta se abriu.
Meus pais.
Cam entrou primeiro, o rosto dela se contorcendo em horror ao me ver. Os olhos dela, sempre tão fortes, encheram de lágrimas instantâneas.
"Eron... minha Deusa, meu menino..."
Ela correu até a cama, mãos tremendo pairando sobre as bandagens frescas no meu braço e peito.
"Mãe... tô bem", tentei dizer, voz quebrada. "Só... dói um pouco."
Mentira. Doía como se estivessem me rasgando vivo. Mas ver ela chorando assim me matava mais que as queimaduras.
Cam desabou na cadeira ao lado, lágrimas escorrendo livre.
"Como isso aconteceu? Seu braço... metade do peito... meu filho..."
Ragnar veio por trás, mão no ombro dela, olhos fundos de raiva contida.
"Ele tá vivo, Cam. É o que importa."
Eu olhei pra porta de novo, vazia.
"Cadê Libby? Por que ela não veio?"
Meus pais se olharam. Um olhar pesado, cheio de coisas não ditas.
Ragnar pigarreou.
"Ela... teve que ir pra Sidney. Ajudar o Enoch."
Cam se assustou, ela também não sabia.
"Sidney? Ajudar Enoch no quê? O que aconteceu com ele?"
Ragnar tentou desconversar, olhando pro chão.
"É complicado. Vamos focar em você agora, Eron."
"Não", eu rosnei, a voz saindo mais forte apesar da dor. "Fala logo. O que aconteceu com meu irmão?"
Cam pressionou também, voz trêmula.
"Ragnar, conta. Não esconda mais nada de mim. O que aconteceu com nosso filho?"
Ele suspirou, derrotado.
"Enoch sofreu um acidente no terreno do resort. Uma rajada de vento forte... um ultimo trunfo de Atlas quando foi morto. O vento jogou Enoch contra as máquinas. Ossos quebrados, hemorragia interna. Tá em cirurgia em Sidney agora. Laura ligou chorando, desesperada. Libby foi pra lá pra ficar com ele, porque a humana não sabe nada sobre nossa... cura."
O quarto girou.
"Enoch... ferido? Mas que porra...!"
Cam desabou de vez, chorando alto.
"Meus filhos... meus três filhos feridos por essa merda. Quando isso vai acabar?"
Ragnar se abaixou, pegando ela nos braços, voz rouca.


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