Enoch
Eu estava sentado na beira da maca quando meus pais entraram no quarto com aquele ar misturado de alívio e censura que eles dominavam tão bem. Minha mãe já veio com as mãos estendidas, como se eu ainda fosse uma criança que precisava ser levantada da cama.
"Vamos levar você para casa", ela disse.
Meu pai assentiu, firme, como se aquilo fosse uma ordem universal.
"Você recebeu alta, vamos ficar uns dias no Riuk e depois vamos para Denver."
Só que Laura não estava ali.
Ela tinha fugido do quarto meia hora antes, o rosto tão vermelho que o médico desviou o olhar. E, sinceramente, depois do que aconteceu… eu também não podia culpar.
Me levantei, puxei minha mochila, e anunciei:
"Eu vou ficar com a Laura por uns dias."
Minha mãe piscou, surpresa.
"Tem certeza que está bem para isso? Você teve ferimentos graves, querido. Pode ir para casa, ser avaliado por nossos médicos e depois você volta."
"Mãe, eu estou ótimo." Fiz um gesto amplo. "Ela e eu precisamos resolver o que acontece entre nós. Meu lobo não vai aceitar eu me distanciar dela assim."
"Resolver" era só uma forma educada de dizer: tentar lidar com a vergonha, a tensão, o desejo e o caos todo de um único jeito que não envolva desmaios ou fugas correndo pelo corredor.
Meu pai me abraçou primeiro, firme. Minha mãe veio logo depois, me apertando, cheirando a lavanda e preocupação.
"Tenha juízo", ela murmurou no meu peito. "Se proteja. E… lembre-se: ela ainda não aceitou ser sua companheira. Ninguém quer um filhote híbrido andando por aí antes de qualquer decisão, não é? Uma alcateia inteira pode entender errado."
As palavras dela entraram como flechas. Diretas. Verdadeiras.
Eu inspirei devagar.
"Eu sei. Não vou fazer nada que comprometa nossa alcateia, ou que coloque qualquer um de nós em uma situação ruim. Obrigado, mãe."
Eles se despediram e saíram do quarto. Peguei minhas coisas e fiz o mesmo, os seguindo.
Assim que pisei na recepção, ali estava Laura, sentada na cadeira. Pernas cruzadas. Mãos entrelaçadas. Olhar fixo no chão como se estivesse prestes a fazer uma prova oral que não estudou.
Quando nos viu, ela levantou na hora. Acenou para os meus pais com educação. Eles responderam, e passaram direto. A porta automática se fechou atrás deles.
Eu caminhei até ela.
E cada passo parecia atravessar um campo minado de sentimentos não ditos.
"Você ainda pode fugir disso tudo, se quiser", eu falei, meio sério, meio provocando para aliviar.
Ela soltou um sopro curto, quase uma risada.
"Eu estava considerando a possibilidade."
Não sabia o que sentir sobre isso. E meu lobo marchando em meu peito, inquieto, irritado com a distância emocional que se enfiou entre nós desde… bom, desde aquela cena.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Apaixonada pelo Alfa Errado