Laura
Estava tentando me concentrar em meu projeto quando vi Rubi sair da sala e caminhar em direção a cozinha.
Não consegui me segurar, fui atrás dela no mesmo instante, tentando não correr, e nem parecer desesperada.
“Rubi… ele tá bem?” Minha voz saiu macia demais para alguém que estava tentando parecer no controle. “Eu pedi pra ele ficar em casa. Ele devia estar descansando.”
Ela soltou uma risadinha, curta, divertida e carregada de quem já conviveu demais com lobos Peyton.
“Laura, pedir pra um Peyton ficar parado é a mesma coisa que pedir pro sol não nascer. Eles fazem o que acham certo. E na cabeça deles, certo é nunca parecer fraco.”
Senti os ombros caírem. Eu sabia. Conheci Enoch o bastante para entender que ele sempre colocaria força onde os outros colocariam cautela.
Mas isso não diminuía meu incômodo.
“Mesmo assim… eu fiquei preocupada.”
Rubi me analisou por um instante, como quem observa uma rachadura crescendo numa parede que antes parecia firme.
“Você tá estranha. O que aconteceu?”
Respirei fundo. Ou tentei. Porque naquele momento respirar era como puxar ar dentro de um corredor estreito demais.
“Acho que isso… entre mim e o Enoch… não vai dar certo.”
Os olhos dela arregalaram. Não de choque dramático, mas de surpresa dolorida.
“Por quê?”
As palavras estavam presas na minha garganta, como se cada uma tivesse pontas afiadas.
“Porque eu vou ter que abrir mão de muita coisa.” Minha voz tremeu. “Da minha vida humana. Da minha segurança. Da minha liberdade de escolha. E… talvez de ser mãe, pelo menos da forma que sempre imaginei.”
Um silêncio caiu entre nós, pesado e cheio de significados. Rubi não tentou me convencer do contrário. Não disse que eu estava errada. Apenas deixou que eu falasse, como se soubesse que essas verdades precisavam sair de dentro de mim antes que começassem a me sufocar.
“Laura…” Ela tocou meu braço. “É normal ter medo. Você tá entrando num mundo completamente diferente. E as escolhas daqui… não são leves.”
“Eu sei.” Pisquei rápido para afastar o ardor nos olhos. “Mas eu amo minha vida. Minha rotina. Meus planos. E agora… tudo parece frágil. Instável.”
Rubi fechou os olhos, como quem recebe uma confissão bonita e perigosa ao mesmo tempo.
“Eu adoraria ter você na minha família.” Ela sorriu, sincera. “Mas não vou te pressionar. Quero que você escolha o que te deixa inteira. Não o que te prende.”
Ela se afastou aos poucos, e cada centímetro de distância parecia uma corda sendo esticada entre nós dois.
Fiquei ali, imóvel, com o coração dividido em direções opostas. Se eu fosse para casa, arrancaria o curativo de uma vez, antes que doesse mais fundo. Se eu voltasse para ele, me atiraria sem rede em algo capaz de virar minha vida do avesso.
Dois caminhos. E nenhum prometia segurança.
Apoiei a mão na mesa mais próxima, tentando achar equilíbrio no mundo que girava demais dentro de mim.
Antes que eu pudesse escolher, senti o ar mudar. Aquela pressão sutil na nuca, como se alguém me enxergasse por dentro. Virei o rosto e o encontrei me observando através da porta de vidro, os olhos escuros percorrendo cada detalhe do meu rosto.
Meu corpo reagiu antes de qualquer pensamento. Me endireitei, tentando esconder o caos que ele mesmo tinha causado.
Ele começou a caminhar até mim.
E, no instante em que nossos olhares se prenderam, percebi que qualquer escolha que eu achasse que tinha… acabava de ficar infinitamente mais difícil.

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