Riuk
Eu percebo cada micro detalhe da Rubi.
Cada respiração curta.
Cada músculo tenso.
Ela está olhando para a tela do próprio notebook… mas a loba dela está mirando direto na Simone como se fosse um alvo marcado.
O rosnado baixo que ecoa no peito dela chega até mim como uma vibração, discreta o bastante para os humanos ignorarem, mas impossível de não sentir.
Minha loba interna ergue as orelhas.
A minha pele arrepia.
Passo a mão por baixo da mesa e aliso a coxa dela, tentando ancorá-la.
Mas o toque, em vez de acalmá-la, faz o cheiro dela ficar mais intenso.
O instinto territorial disso tudo está deixando os dois lobos em alerta, o dela e o meu.
Simone senta do meu lado esquerdo, com aquele perfume exagerado que sempre me pareceu agressivo.
Rubi está do meu lado direito, tão perto que consigo sentir o calor radiante dela.
O investidor entra e Simone instantaneamente se inclina para frente, sorrindo largo demais.
Ela se estica, se exibe, se vende.
E eu vejo os olhos do cara escorregarem por ela como se avaliassem carne no açougue.
Não posso controlar isso, nem as intenções dele, nem o jeito como Simone sempre tenta chamar atenção, então apenas observo.
Ela começa a apresentação.
E fala.
E fala.
E fala mais um pouco.
Mas não entrega nada.
É tudo raso, visual, sem profundidade.
Sem vida.
Parece um hotel qualquer, um projeto padrão, um recorte glamouroso e vazio.
O cliente parece contente.
Contente… mas não convencido.
Ele elogia, mas a energia dele é morna, quase desinteressada.
Simone percebe e insiste:
"Alguma dúvida?"
Ele responde que não. Ele recosta na cadeira, satisfeito, mas não completamente convencido.
“Quero ver a outra opção”, ele diz.
Perfeito.
Olho para Rubi, e ela já levanta com aquela postura elegante que só ela tem, mesmo nervosa, mesmo no limite. Mas o queixo está firme, os olhos atentos, e meu lobo rosna baixinho só de vê-la assumir o controle assim.
Simone tenta sorrir, fingindo neutralidade, e me olha tentando achar algum motivo que desmorone a apresentação de Rubi, então a ignoro.
Rubi se posiciona ao lado da tela, respira fundo… e começa.
“Bom… o conceito central do meu projeto é unir sustentabilidade real com impacto visual inteligente.”
“Bom… o meu conceito para este resort parte de um princípio simples: integrar, e não destruir.”
O investidor imediatamente levanta as sobrancelhas.
Ela clica para o primeiro slide: a fachada viva inteligente.
“Essa fachada utiliza espécies nativas da região, não introduzimos plantas exóticas. Isso reduz o impacto ecológico, mantém o equilíbrio local e facilita a aprovação das licenças ambientais.”
O investidor se inclina para frente, interessado.
Rubi continua:
“A estrutura não é apenas decorativa. Ela ajuda na purificação do ar, no isolamento térmico e acústico, reduz o consumo de energia e cria um microclima natural. O sistema retém água da chuva e usa sensores para irrigação inteligente.”
Eu observo Simone engolir seco.
Rubi avança o slide.
“Também reestruturei o layout externo para reduzir a interferência no solo. Mantivemos as áreas de preservação, respeitando o fluxo natural da fauna local. Isso diminui o impacto no ecossistema e acelera a aprovação das licenças.”
O investidor anota algo rápido, como quem não quer perder nada.
E ela segue, brilhante:
“No piso externo das passarelas, implementei um sistema de energia cinética. Cada passo dos hóspedes gera energia convertida para a iluminação. A malha fica invisível sob o piso, preservando o design e eliminando a necessidade de postes invasivos.”
O investidor sorri. Um sorriso honesto.
“Genial.”
Rubi continua:
“Esta integração sustentável de energia, mais a fachada viva, nos permite pleitear o selo Green Friends (Amigos da Natureza). Ele certifica empreendimentos que realmente trabalham em harmonia com o meio ambiente. Isso traz visibilidade internacional e aumenta em até 40% o interesse de turistas eco-conscientes.”
Eu quero levantar e aplaudir.
Deusa, ela é brilhante.
Simone está branca como papel.


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