Laura Stevens –
O ar na sala parecia pesado, carregado por tudo o que não foi dito, por todas as feridas abertas ao longo dos anos.
Christian estava sentado ao meu lado, com sua presença firme e imponente como sempre, mas era o homem diante de nós que tornava tudo mais difícil.
Meu pai.
O homem que me olhava agora com os olhos marejados, completamente comovido, como se finalmente estivesse enxergando algo que passou a vida toda ignorando.
Ele deu um passo hesitante à frente e então, sem pensar duas vezes, caiu de joelhos diante de mim, me deixando surpresa.
— Filha... — Sua voz saiu trêmula, carregada de dor. — Eu sinto muito.
Aquelas palavras ecoaram pela sala, mas não aliviaram a dor que pulsava dentro do meu peito.
Ele segurou minha mão com força, como se tivesse medo de que eu desaparecesse diante dele.
— Eu... Eu negligenciei você, minha própria filha. — Seus dedos apertaram os meus, e ele abaixou a cabeça, como se não tivesse coragem de me encarar. — Eu não sabia o que fazer quando vi aquela criança...
Meu coração bateu dolorosamente.
— E então? — Minha voz saiu carregada de mágoa. — O que te fez mudar de ideia?
Ele respirou fundo antes de me olhar novamente, seus olhos estavam cheios de lembranças.
— Eu ouvi.
Minha testa franziu.
— Ouvi o quê?
— A voz da sua avó me mandando fazer algo por aquele menino. – Disse ele, mostrando-se completamente atordoado.
Minha respiração ficou presa. Eu o encarei, vendo-o se martirizar pela culpa que carregava todos esses anos.
— Eu ouvi minha esposa... Linda... E outra mulher. — Ele fechou os olhos por um momento, como se estivesse revivendo aquele instante. — Falando sobre você. Falando sobre como Ivy estava viva. Sobre como agora você se chamava Laura.
Meu estômago se revirou.
— Você... Acreditou?
Ele negou com a cabeça, um sorriso triste e doloroso curvando seus lábios.
— Não. No começo, achei que era loucura. Que era uma alucinação de uma mulher velha e sofrida... Mas então, tudo começou a se encaixar.
Eu balancei a cabeça, a dor voltando com força total.
— E ainda assim, me negou?
— A única coisa que pude fazer para me redimir... — Ele engoliu em seco, sua voz tremendo com a emoção. — Foi cuidar dessa criança. Fazer por ela o que nunca fiz por você.
As lágrimas escorreram pelo meu rosto.
Eu queria odiá-lo. Queria gritar, mas a dor era maior do que qualquer palavra.
— Você nunca esteve lá. — Minha voz saiu engasgada. — Nem quando eu precisei. Nem quando minha avó precisou. Você negligenciou seu próprio sangue.
Ele abaixou a cabeça novamente, exibindo seus ombros estremecendo.
— Eu sei.
O silêncio caiu entre nós.
Minha garganta ardia, meus olhos queimavam e a dor das lembranças.
— O senhor pode fazer algo. — A voz de Christian soou grave, autoritária. — Pode tentar ser melhor de agora em diante e fazer o bem, já que está tão disposto a mudar.
Meu pai o encarou, sua respiração pesada, os olhos carregados de algo que eu não conseguia decifrar. Então, de repente, ele deu um passo à frente, olhando diretamente para Christian, sua expressão tomada pelo desespero.
— Me aceite aqui! Eu posso ser seu escravo, posso trabalhar para você até o resto da minha vida, mas não me mande de volta...Ou eu serei morto.
O ar foi arrancado dos meus pulmões.
Meu corpo ficou rígido, e então, num reflexo, olhei para Christian, que me devolveu um olhar igualmente confuso.
— Morto? — Minha voz saiu quase em um sussurro.
Ele respirou fundo, passando as mãos trêmulas pelo rosto antes de encarar a nós dois.
— Vocês não fazem ideia de quanto aquela Andressa é perigosa!
Meu estômago se revirou ao ouvir aquele nome.
— O que quer dizer com isso? — Minha voz saiu mais firme, exigindo respostas.
Ele passou a mão pelo cabelo, respirando de forma errática.
— Eu achei que estava lidando com só mais uma mulher sedenta por vingança... Mas não. Ela é muito mais do que isso.
Christian cruzou os braços, sua expressão carregada de desconfiança.
— Explique.
Meu pai hesitou por um segundo, seus olhos cheios de incerteza.
— Se eu contar tudo, não haverá volta.

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