Christian Müller -
Chegamos em casa ainda com o gosto amargo da última ligação.
O silêncio da sala me abraçou como um aviso.
Nathan dormia no sofá com um dos brinquedos ainda nas mãos e Laura estava sentada na poltrona, com os olhos fixos em mim como se pudesse ler minha alma de longe.
Fui até ela em silêncio.
Inclinei o rosto e depositei um beijo demorado em sua testa, sentindo o calor da pele dela contra os meus lábios. Fiz menção de me afastar, mas ela segurou minha mão.
— Aonde você vai? — A voz dela veio baixa, quase em um sussurro, mas cheia de tudo o que ela não estava dizendo.
Voltei, olhei nos olhos dela e mais uma vez deixei um beijo em sua testa.
— Preciso que confie em mim. Eu voltarei para você.
Ela assentiu devagar, mas seus olhos diziam o contrário.
Havia tristeza, medo, e algo que me cortou por dentro: a angústia de quem já perdeu demais.
Eu a soltei com cuidado, e mesmo sem palavras, sabia que ela estava implorando pra que eu não fosse. Mas eu tinha que ir. Por ela. Por todos nós.
Peguei as chaves e desci as escadas como quem atravessa um campo minado. Cada passo pesava como chumbo.
Assim que entrei no carro, meu celular vibrou.
Maria.
"Localização enviada."
Um hotel à beira da estrada, velho conhecido de encontros escondidos e acordos que ninguém devia saber. Suspirei fundo e dirigi em silêncio, meus pensamentos em guerra.
Chegando lá, estacionei no canto mais escuro do estacionamento. O lugar parecia discreto demais para o que estava prestes a acontecer.
Ao entrar no lugar, reparei alguns seguranças disfarçados — dois deles estavam sentados, fingindo serem hóspedes, outro estava perto da recepção, mexendo no celular.
Nenhum deles era comum. Todos com olhos atentos, postura rígida. Gente dela.
Subi as escadas sem pedir permissão. Quarto 214.
A maçaneta estava destrancada, como um plano bem arquitetado.
Abri a porta devagar, já sabendo o que eu encontraria lá dentro.
A luz estava baixa, o cheiro forte de perfume caro invadia o quarto, e ela.
Maria.
Ela estava deitada sobre os lençóis com uma lingerie preta que mais parecia uma armadilha. O cabelo solto, um sorriso preguiçoso no rosto e aquele olhar que sempre carregava veneno com açúcar.
— Oi, meu bem… sentiu minha falta? — Perguntou ela, com a voz doce, arrastada, como se tudo fosse uma brincadeira sensual e nada além.
Ela sorriu. Doce e ao mesmo tempo selvagem. Cheia de pureza por fora, mas com os olhos carregados de maldade.
Ela era as duas faces. O bem e o mal. Basta qual lado dela você vai acordar.
Maria foi meu abrigo por um tempo. Uma amiga mais íntima, de bebidas e apoio enquanto eu estive na penumbra.
Quando eu pensava que o meu mundo tivesse se esvaído com a morte de Ivy.
Não teve nada de muito íntimo, nada além do que deveria, mas ainda assim, eu acabei a dando ideia de que um dia eu poderia ter espaço para ela.
Meu erro. Um erro que me arrependi amargamente quando a vi de volta. E até hoje me arrependo.
Peguei a taça de suas mãos e a olhei nos olhos.
—Me prometa que vai acabar com tudo isso se eu beber. – Falei a vendo sorrir.
—Seja meu. – Disse ela, dando já a resposta de todas as perguntas. —Me deixa ser ela por um único dia e eu te deixo em paz, mas me olhe como a olha. Me queira como a quer.
Eu a olhei nos olhos e sem desviar, bebi.
O líquido queimou na minha garganta e aí está a surpresa. Champanhe é doce, suave, delicado, mas a bebida rasgou como um veneno.
Um veneno que eu previa.
—Me prometa...Não toque...Neles... – Foi a última coisa que eu disse antes de apagar.

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