Christian Müller –
Os lençóis tinham cheiro de perfume e loucura. Me deixei cair como se o veneno já estivesse fazendo efeito.
Como se o meu corpo tivesse rendido.
Mas eu estava ali.
Cada célula minha estava em estado de alerta. Fingindo estar inconsciente, mas vendo, ouvindo, sentindo tudo.
Maria não disse nada de imediato. O silêncio dela foi o mais perturbador.
Ouvi o farfalhar do tecido. Seus passos descalços no carpete.
E então senti.
Seus dedos tocaram meu peito, vagarosamente, com a ponta das unhas traçando linhas invisíveis por dentro da minha camisa. O botão foi desfeito com calma. Depois o segundo. O terceiro...
Ela abriu minha camisa como quem desembrulha um presente roubado.
— Sempre assim... tão bonito. Tão forte. Meu. — Murmurou ela.
Eu sentia o toque dela como uma faca sem corte. Ela acariciava meu peito com lentidão, como se quisesse memorizar cada linha da minha pele. Como se minha pele fosse dela.
E então veio o beijo.
Seus lábios tocaram os meus.
Secos. Frios. Vãos.
Um arrepio subiu pela minha espinha, e não foi prazer. Foi repulsa.
Minha alma se encolheu inteira. Era como se ela estivesse manchando algo sagrado.
Laura.
Eu pensava nela o tempo todo. No cheiro dela, na suavidade dos gestos, no calor do toque.
Em como seus beijos tinham gosto de lar e não de posse. O corpo de Maria era outro mundo, estranho, errado.
Eu sentia a sujeira me cobrir por dentro e a culpa me dominar por permitir aquilo, mas era necessário.
Maria sussurrava coisas contra minha boca, como se estivéssemos em algum tipo de reconciliação apaixonada.
Mas aquilo não era amor. Aquilo era febre.
— Agora sim, Ivy... agora você pode descansar... — sussurrou ela.
Ela me chamou de Ivy.
E naquele instante eu entendi: ela já não via mais a diferença entre mim e a mulher que destruiu. Na cabeça dela, ela falava de Laura. E eu era o prêmio que escapou.
A insanidade dela era um véu translúcido, cada vez mais fino. Estava se rompendo diante de mim, em pedaços visíveis.
Ela se afastou por um momento e eu ouvi o som da bolsa sendo aberta.
A voz dela recomeçou, quase cantada:
— Eles me disseram que isso era errado... mas o amor verdadeiro nunca é errado, Christian. Nunca.
Senti os dedos dela de novo, agora na lateral do meu pescoço, procurando veias, sussurrando promessas quebradas. E então, o som que me fez abrir os olhos por dentro: o estalo suave de uma tampa sendo removida.
A seringa.
Eu a senti deslizar o ar como uma ameaça prestes a tocar a carne.
— Só mais um segundo, meu amor... só para você dormir mais fundo. Depois, a gente vai embora. Para longe. Sem ela. Sem ninguém. — Disse Maria em um tom materno, alucinado.
Pessoas que provavelmente existiam só na cabeça dela.
Ela não estava apenas obcecada. Ela estava quebrada. Inteira, irremediavelmente quebrada.
Peguei a seringa do chão. Era uma substância forte. Dose alta. O suficiente para apagar alguém por horas — talvez mais.
Ela teria me levado. Me escondido. Me matado, se fosse preciso, só para manter o papel que ela mesma escreveu para nós dois.
Respirei fundo. Liguei para o número que já estava nos favoritos do meu telefone havia semanas.
— Mark, terminei aqui. Preciso de reforços e se possível, um psiquiatra junto.
Eu sabia que ele viria me socorrer.
Enquanto eu esperava, fiquei sentado na beira da cama, fechando os botões da camisa um a um, como se cada um fosse uma barreira entre mim e o que acabou de acontecer.
Olhei para ela uma última vez.
Maria estava deitada no chão, abraçada a uma almofada, como uma criança cansada de chorar. Repetia meu nome como uma prece. Ou uma maldição.
Minutos depois, ouvi batidas na porta e Mark passou por ela, me olhando em choque.
—Müller... – Eu balancei a cabeça em negação, antes que ele falasse qualquer coisa. Na verdade, nem precisava de muito.
Em seguida, uma equipe médica entrou.
Eu não senti alívio. Nem raiva. Nem pena.
Só um vazio imenso.
Ela tentou me destruir e no fim, a loucura que ela carregava, destruiu a si mesma.

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