Christian Müller –
Eu ainda não conseguia acreditar que tudo aquilo tinha tomado uma proporção tão grande.
Quatro dias. Só quatro dias atrás, eu estava embarcando em um voo, pensando em como seria emocionante segurar minha filha nos braços. E agora... agora minha vida inteira parecia desmoronar diante dos meus olhos.
Fechei os olhos e deixei minha mente me arrastar de volta, tentando entender onde tudo tinha começado a dar errado.
Foi naquele dia, no aeroporto.
Eu já estava prestes a embarcar, conferindo pela última vez as mensagens no celular, quando vi uma mulher a alguns metros de distância.
Ela segurava a barriga, com a outra mão apoiada na poltrona, como se buscasse forças para ficar de pé. Ao lado dela, uma garotinha — devia ter uns cinco anos, no máximo — a olhava com preocupação.
As duas tinham a pele dourada, os cabelos pretos e lisos. Pareciam chilenas, pelo sotaque e pelas roupas pesadas de lã que usavam para se proteger do frio cortante.
"Logo tudo vai melhorar, meu amor", eu ouvi a mulher dizer à filha, a voz trêmula.
Aquilo me acertou de um jeito estranho. Eu pensei em Laura. Pensei em Tereza.
E não consegui ignorar.
Quando cheguei ao meu assento, já me sentindo inquieto, chamei uma aeromoça.
—Com licença... aquela senhora grávida... será que ela poderia trocar de lugar comigo?
Meu lugar é mais confortável e ela parece precisar.
A aeromoça sorriu, surpresa com o gesto, e assentiu. Minutos depois, a mulher vinha em minha direção, carregando a filha e a bagagem de mão.
Ela segurava a barriga com força, fazendo uma careta de dor entre um sorriso tímido e outro.
Quando me alcançou, ela me agradeceu em espanhol, juntando as duas mãos em frente ao peito e se curvando levemente, demonstrando uma gratidão que eu não esperava.
Eu apenas sorri, balançando a cabeça, e me levantei para que ela se acomodasse com a filha.
Segui para o assento da classe econômica, satisfeito por ter feito a coisa certa.
Foi lá que aconteceu.
Assim que me sentei, uma mulher bem arrumada, com cabelos loiros ondulados e sorriso treinado, me tocou no braço.
—Christian Müller? — perguntou ela, animada. —Sou advogada da Schmidt Corp, te admiro muito! Que honra te encontrar aqui!
Meu mundo parou.
Minha respiração falhou.
Entrei no primeiro avião que encontrei, sem pensar, sem bagagem, sem nada além do pânico consumindo cada parte de mim. Mark ficou para trás para terminar a negociação e eu parti de volta.
O medo de perder o nascimento da minha filha me destruiu. E mesmo quando cheguei, destruído de cansaço, pronto para implorar perdão por qualquer coisa que tivesse feito...
Laura me recebeu com frieza. Com mágoa. Com um muro invisível que eu não sabia como atravessar. Se não fosse Dominic me avisando antes o que havia acontecido, eu juro que teria surtado.
Eu a entendi. Juro que entendi.
Mas também sabia que confiança não podia ser algo descartável. Não é algo que se deixa perder na primeira tempestade.
Eu não fiz nada. E provar isso seria o que me restava.
Só que, para salvar o que tínhamos, Laura também precisaria querer enxergar.
Porque eu... eu estava disposto a lutar por nós até o último suspiro.

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