Risos e feridas
Eloise ainda enxugava as lágrimas quando voltou os olhos para a porta da sala de cirurgia. O desejo era claro: permanecer ali, imóvel, até que pudesse ver o pai abrir os olhos.
— Eu quero ficar no hospital. — disse, firme, como se fosse uma promessa.
Cláudia deu um passo à frente, a voz firme, mas terna:
— Filha… a cirurgia já foi feita. Agora você precisa descansar e confiar nos médicos… e em Deus. — pousou a mão no ombro dela. — Uma noite bem dormida é o melhor que você pode fazer agora.
Thiago assentiu, apoiando a ideia.
— É verdade, Eloise. Não tem nada que você possa fazer aqui além de se desgastar. Cláudia garantiu que seu pai está nas mãos da melhor equipe da Cidade Norte.
Eloise mordeu o lábio, dividida entre o alívio e a culpa de ir embora.
Foi Nathalia quem se aproximou, cruzando os braços com um sorriso maroto para suavizar o clima.
— Então está decidido. Você vai dormir comigo hoje. — disse, categórica. — Não vou deixar você ir para casa e ficar sozinha, nem pensar. Vai ser noite das meninas!
E, piscando de forma brincalhona, completou:
— Além disso… eu ando meio carente.
Eloise abriu um meio sorriso, emocionada. A cena já parecia mais leve, até que uma voz masculina ecoou atrás delas:
— Se é carência o problema, eu sou a cura.
Todos se viraram e deram de cara com Heitor Reis, encostado à parede com um sorriso convencido.
O comentário pegou todos de surpresa. Nathalia arregalou os olhos, Cláudia revirou os dela, e até Thiago ergueu uma sobrancelha.
Mas Eloise, contra todas as expectativas, deixou escapar uma risada curta, seguida pelas demais. A tensão da noite que parecia interminável se quebrou por alguns segundos.
Heitor aproximou-se, teatralmente ofendido.
— Qual é… eu estou falando sério. — disse, mas o tom era leve, quase provocador.
O corredor, antes sufocado pelo peso da cirurgia, encheu-se com algo que Eloise não sentia fazia tempo: esperança misturada com riso.
Eloise, ainda com os olhos marejados, olhou surpresa para Heitor.
— Mas… o que você está fazendo aqui?
Ele deu de ombros, com a calma de sempre.
— Thiago me ligou para avisar. — respondeu, direto. — Eu passei aqui para verificar como você estava.
Eloise baixou os olhos, tocada pelo gesto.
— Obrigada, Heitor… de verdade.
Mas a gratidão foi logo cortada pela voz firme dele:
— Gratidão não é suficiente. — disse, encarando-a. — Eu falei que, se você precisasse de alguma coisa, era para ir até a minha sala. Como é que seu pai precisa de uma cirurgia e você não me fala nada?
O rosto de Eloise corou, tomada pela vergonha.
— Heitor… não tinha como. — murmurou, hesitante. — Como eu iria pedir uma quantia tão grande ao meu chefe, sendo que tenho apenas três dias de trabalho na empresa?
O silêncio pairou entre eles. Por um instante, o olhar de Heitor suavizou. Ele respirou fundo, afastando a frustração.
— Só se lembra de uma coisa, Eloise: você pode contar comigo. Sempre.
As palavras ficaram suspensas no ar, como uma promessa que ela não soube como responder.
Nathalia, percebendo o peso da conversa, bateu palmas de leve, tentando quebrar o clima.
— Certo, chega por hoje. Vamos para casa, porque todos estão cansados. Esse dia já teve emoção demais para uma vida inteira.
Eloise suspirou, rendida.
— Está bem… eu vou com você.
Thiago se adiantou, oferecendo-se:
— Eu levo vocês duas. Depois deixo a Cláudia em casa.
Mas Heitor ergueu a mão, cortando.
— As meninas eu levo. Vocês precisam descansar.
Nathalia ainda tentou hesitar, trocando olhares rápidos com Eloise. Mas, pensando melhor, percebeu que fazia sentido.
— Está certo. — cedeu. — Thiago leva a Cláudia, e nós vamos com Heitor. Assim todo mundo chega mais rápido em casa.
O carro virou em uma rua iluminada por postes antigos, e Heitor reduziu a marcha.
— Vou propor algo. Nada de voltar direto pra casa. Que tal comer alguma coisa?
Nathalia se animou na hora:
— Se for restaurante chique, tô fora. Não tenho paciência pra vinho com nome francês e prato que mais parece enfeite.
— Relaxe. — disse Heitor, piscando para Eloise pelo retrovisor. — Pensei em algo melhor: pastelaria do seu Zeca, aberta até de madrugada. Pastel gorduroso, suco de caixinha, refrigerante gelado, guardanapo que não limpa nada, muitas calorias. É disso que vocês precisam.
Eloise arregalou os olhos, surpresa.
— Você, em pastelaria de bairro?
— Ei, não espalha. Tenho uma reputação a zelar. — respondeu, teatral.
O carro parou na esquina iluminada por uma placa neon trêmula. O cheiro de fritura escapava pela porta de vidro, e o ambiente era tão simples que parecia outro mundo em comparação com os salões luxuosos que Eloise costumava frequentar ao lado de Augusto.
Ao entrar, sentaram-se em uma mesa de plástico, rindo da falta de formalidade. Nathalia já pediu dois pastéis de queijo, Heitor pediu carne com ovo, e Eloise, depois de hesitar, acabou escolhendo frango com catupiry.
Enquanto esperavam, Heitor se inclinou para a mesa, os olhos fixos em Eloise.
— Viu só? Nada de vestido caro, nada de gala, nada de ogro. Só nós três, comida de verdade e risadas. — sorriu de canto. — Aposto que era isso que você queria.
Eloise abriu um sorriso tímido, mas sincero.
— Talvez… você tenha razão.
Por algumas horas, ela conseguiu esquecer a dor, as dúvidas e até mesmo Augusto Monteiro.
Nathalia ergueu o copo de suco como se fosse champanhe.
— Um brinde ao pastel que salva corações partidos.
As risadas ecoaram leves, aquecendo aquele pequeno espaço com uma simplicidade quase esquecida.
Então, o celular de Heitor vibrou sobre a mesa.
Ele olhou para a tela, o sorriso sumindo por um instante.
— Com licença. — murmurou, levantando-se para atender

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...