Cara a Cara
Augusto não conseguia parar de pensar. As imagens no celular, as lembranças no corredor, as lágrimas de Eloise. Nada o deixava em paz.
De repente, levantou-se da poltrona como se algo o tivesse chamado. No closet, pegou roupas simples — jeans escuro, casaco comum, boné —, um disfarce para apagar a figura do empresário poderoso.
Na garagem, não escolheu nenhum dos carros luxuosos. Passou direto e pegou um modelo discreto, sem brilho, sem placas chamativas. Precisava ser invisível naquela noite.
No caminho, parou em uma lanchonete 24 horas. Pediu uma sacola de doces, algumas bebidas e café. Um gesto simples, mas que carregava a mesma urgência do coração dele.
Minutos depois, estacionava em frente ao prédio de Nathalia. A respiração pesada denunciava o nervosismo, mas ele manteve o olhar fixo no interfone.
Na guarita, o porteiro pegou o telefone e ligou para cima:
— Senhora Nathalia, tem um rapaz aqui pedindo para subir e entregar uma encomenda para a senhora.
A voz dela veio pelo alto-falante, firme, desconfiada:
— Estranho. Não estou esperando ninguém. Não aceito.
Augusto suspirou fundo, inclinou-se até o vidro e disse baixo ao porteiro, mas com a força de quem sabia que seria ouvido:
— Diz para ela… que é o Ogro.
O porteiro repetiu no interfone. Do outro lado da linha, silêncio. Um silêncio denso, que fez o coração de Augusto disparar.
Lá em cima, Nathalia gelou. Olhou imediatamente para Eloise, que empalideceu. O apelido era íntimo, só delas.
— Amiga… — Nathalia murmurou, hesitando. — Não me matar, mas se ele veio a essa hora… é porque é sério.
O ar na sala ficou pesado. Eloise não conseguiu responder, apenas segurou a almofada contra o peito, o coração batendo tão alto que parecia ecoar pelo apartamento.
Nathalia abriu a porta com cautela, o corpo firme como uma barreira. Augusto estava ali, simples, mas ainda imponente. O boné não escondia os olhos verdes faiscando no meio da noite.
— Você não devia estar aqui. — ela disse seca.
— Eu sei. — respondeu, calmo, a voz mais baixa que o habitual. — Mas não consegui dormir. Não vim para julgar, Nathalia. Não vim apontar o dedo para ela.
Nathalia se afastou dando passagem para Augusto, encarando ele de cima a baixo, ainda atônita, deixou escapar em voz baixa, quase um sussurro:
— Então era você…
Os olhos de Eloise se arregalaram, o coração disparando.
— O quê?
Agora sem o paletó caro, sem a máscara do CEO intocável, apenas o homem por trás do disfarce.
— Era ele, Eloise… eu sabia que reconhecia. Foi ele quem entregou o café de manhã.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Eloise recuou um passo, sentindo o chão sumir sob os pés.
Os olhos dela se encontraram com os dele, verdes e intensos, e por um segundo tudo fez sentido.
O café, a mensagem.
"Foi bom te ver."
Era ele, o tempo todo.
Do sofá, Eloise se levantou devagar, assustada.
— Então… o que você veio fazer aqui, Augusto?
Ele respirou fundo, os olhos presos nos dela.
— Só quero saber o que você estava fazendo com o Lucas.
Eloise arregalou os olhos, o coração disparando.
— Você… você está me seguindo? — a voz saiu trêmula, mais acusação do que pergunta.
— Não. — ele respondeu de imediato, firme. — Mas alguém está. E, depois de hoje, acho melhor ter um segurança com você.
Do bolso do casaco, tirou o celular. A tela já estava aberta na galeria. Estendeu o aparelho para Eloise.
— Olha.
Hesitante, ela pegou o celular. O sangue gelou ao ver as imagens: ela e Lucas no restaurante, os gestos, os sorrisos, a proximidade.
Nathalia, curiosa, se aproximou e olhou por cima do ombro da amiga. O choque percorreu seu corpo.
— Não. — disse firme, os olhos marejados mas implacáveis. — Não encosta em mim.
Augusto parou no lugar, a mão suspensa no ar, o peito erguendo-se pesado.
Eloise respirou fundo, a frieza se impondo mesmo enquanto as lágrimas ardiam.
— Não volta aqui. Nunca mais.
As palavras ecoaram como sentença.
Por um instante, ele permaneceu imóvel, o olhar verde preso nela, como se buscasse uma fresta para quebrar a barreira. Mas não encontrou nada além de muros erguidos pela dor.
Devagar, baixou a mão e se afastou. A sombra dele atravessou a sala até a porta, e cada passo parecia o de um homem que carregava correntes invisíveis.
A porta se fechou atrás dele com um estalo seco.
No silêncio que restou, Eloise desabou no sofá, escondendo o rosto entre as mãos. Nathalia se aproximou rápido, mas respeitou o espaço dela.
Eloise sussurrou, entre soluços contidos:
— Eu não posso… eu não consigo de novo.
Do lado de fora, no corredor frio, Augusto parou diante da porta fechada. O punho cerrado latejava, a respiração vinha pesada, e os olhos verdes brilhavam com raiva e dor misturadas.
Ele se recostou contra a parede, fechando os olhos por um instante.
Podia sentir o peso da rejeição como uma lâmina no peito, mas junto dela havia algo ainda mais forte: a certeza de que não desistiria.
Em silêncio, deixou o prédio, o disfarce ainda cobrindo sua face. Mas dentro dele, a fera estava mais viva do que nunca.
Porque se Eloise acreditava que podia afastá-lo com palavras, ele sabia:
o destino ainda tinha outros planos para os dois.
Augusto desceu até a rua em silêncio, cada passo firme, como quem lutava para se manter inteiro.
Foi então que notou: um carro parado na esquina, faróis apagados, mas motor ainda ligado. O vidro escuro escondia os ocupantes, mas Augusto percebeu o detalhe — não era um carro comum do bairro.
Seu instinto gritou.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...