A Voz de Quem Ninguém Ouvia
A sala de visitas do presídio era fria — não só no ar, mas no silêncio.
Uma mesa de metal separava Augusto e Thomas do homem sentado à frente deles.
Wesley Silva não era grande. Não era violento.
Mas parecia carregado por um mundo inteiro de derrotas.
Os olhos dele — cansados, fundos — não tinham arrogância, nem resistência.
Somente verdade crua.
Ele respirou fundo antes de falar:
— Senhor Augusto… investigador Thomas… — começou, com a voz rouca. — Eu não quero dinheiro. Não tô aqui pra pedir nada. Eu só quero… uma chance. Uma conversa limpa. Eu vou contar tudo o que sei. E… se for possível… — engoliu seco — queria a ajuda de vocês.
Thomas manteve o olhar firme, atento.
Augusto apenas ouviu — sério, mas não fechado.
Wesley passou a mão pelo rosto, tremendo.
— Eu tô aqui porque fiz merda. Eu sei disso. — A voz dele falhou, mas não recuou. — Eu invadi uma farmácia com uma arma.
Augusto permaneceu imóvel.
Thomas apenas ergueu o queixo, dizendo: continue.
— Minha mãe tava morrendo… — ele disse, a voz quebrando. — O remédio que segurava os pulmões dela custava mais do que eu fazia em dois meses de trabalho…
Os olhos dele brilharam, sem cair lágrima — o tipo de dor que já secou tudo por dentro.
— Eu não pensei. Eu só… fiz. — disse, apertando as mãos sobre a mesa. — Tinha medo de perder ela. E perdi do mesmo jeito.
Silêncio.
Wesley respirou fundo, com esforço.
— Eu não pude ir ao enterro dela.
E… — a voz baixou — eu tenho dois filhos. Dois.
E eles tão crescendo sem o pai.
Thomas desviou o olhar por um instante, não por julgamento, mas por respeito.
Augusto sentiu algo apertar o peito — porque ele sabia o que era perder alguém e não poder fazer nada.
— Eu já tinha um antecedente… — Wesley continuou — besteira de moleque, furto na adolescência… Aí o juiz pesou. Peguei seis anos.
Ele ergueu o olhar — não pedindo pena, mas dignidade.
— Eu sei que eu tô pagando pelo erro. Eu aceito isso.
Eu só não quero que meus filhos entrem nesse mundo também.
Thomas inclinou-se levemente para frente.
— O que você quer exatamente?
Wesley inspirou como quem toma coragem para pular.
— Um advogado. — disse. — Só isso.
Eu não tô pedindo liberdade, nem facilitador, nem nada fora da lei.
Só… alguém pra me ajudar a não perder tanto tempo, perder tudo.
Ele olhou diretamente para Augusto dessa vez.
— Se vocês me ajudarem… eu vou pagar cada centavo quando sair. Eu prometo. Eu não sou bandido, senhor Monteiro. Eu só sou um homem que fez uma escolha errada… mas eu não me vendi. Eu não sou deles.
“Deles.”
A palavra ficou suspensa no ar.
Thomas percebeu.
Augusto percebeu.
Era ali que estava o fio que importava.
Augusto apoiou os antebraços sobre a mesa — firme, direto.
— Nós podemos te ajudar. — afirmou, sem hesitar.
Wesley fechou os olhos, como quem finalmente respira depois de horas afogando.
Mas ainda não tinha terminado.
Ele ergueu o olhar de novo — agora mais firme, mais decidido, mais perigoso.
— E eu vou ajudar vocês também. — disse, baixo. — Eu não sei quem mandou matar o Daniel. Mas ele me confiou algo.
Augusto e Thomas ficaram imóveis.
A sala pareceu ficar menor.
Já no estacionamento, Augusto encostou-se no carro e finalmente abriu a carta.
Os olhos percorreram as linhas, cada palavra parecendo pulsar em vermelho.
Então ele parou.
Um nome.
Um nome que ele já tinha visto.
Que cruzava seu caminho.
Que estava sempre ali, no círculo, nos eventos, nas conversas.
Mas que ele jamais imaginara ligado ao sangue, ao passado e ao caos.
A respiração dele simplesmente parou.
A linha da mandíbula ficou rígida.
Thomas se aproximou, observando o olhar de Augusto mudar — deixar de ser gelo… para se tornar aço.
Sem dizer nada, Augusto entregou-lhe a carta.
Thomas leu.
E o silêncio que veio depois tinha peso.
— Então era isso. — murmurou Thomas, fechando o papel devagar. — Sempre esteve perto demais.
Augusto ergueu o olhar para o horizonte — como quem olha para um inimigo já reconhecido, mesmo antes de vê-lo.
— É como dizem… — a voz dele saiu baixa, firme, amarga. — Um inimigo sempre mora ao lado.
O vento soprou, frio.
Thomas assentiu — um acordo silencioso entre homens que já sabiam o que vinha pela frente.
Não era mais investigação.
Não era mais suspeita.
Agora tinha nome.
Agora tinha rosto.
Agora era guerra.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...